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0 Olhando o Sofrimento dos Outros | Opinião


Wook.pt - Olhando o Sofrimento dos OutrosSusan Sontag volta ao tema das representações visuais da guerra e da violência na nossa cultura. Este foi o último livro de Susan Sontag a ser publicado antes da sua morte, em 2004. Considerado por muitos uma continuação ou uma adenda ao livro Sobre Fotografia (também publicado pela Quetzal), apesar de os dois livros terem opiniões sobre fotografia radicalmente diferentes, este longo ensaio dedica-se sobretudo à fotografia de guerra.

Enquanto desmonta uma série de lugares-comuns no que concerne às imagens de dor, horror e atrocidade, Olhando o Sofrimento dos Outros reafirma a importância das mesmas, mas mina a esperança de que estas consigam comunicar alguma coisa substancial. Se por um lado, a narrativa e o enquadramento conferem às imagens o grosso do seu significado; por outro, os que não passaram por essas experiências tremendas «não são capazes de compreender, não são capazes de imaginar» o que essas imagens representam.


Autor: Susan Sontag  
Editor: Quetzal Editores (Janeiro, 2017)
Género: Ensaios
Páginas: 128
Original: Regarding the Pain of Others (2001) 
 National Book Critics Circle Award Nominee for Criticism (2003)


💬 opinião
★★★★☆
"a guerra evacua, abala, estilhaça, arrasa o mundo construído (...), dilacera, rasga. A guerra despedaça, esventra. A guerra calcina. A guerra mutila. A guerra destrói"
Bitmoji
Olhando o Sofrimento dos Outros é uma ponderação profunda e alargada sobre a fotografia de guerra/catástrofe, levando-nos a pensar no real poder destas imagens, bem como na sua utilização e significado.

Uma fotografia desta natureza alimenta, naturalmente, a condenação da guerra ou, pelo menos, de uma das facções envolvidas. Neste sentido, a fotografia pode servir como meio de manipulação, acicatando o ódio contra o inimigo e/ou dirigindo a opinião pública em determinado sentido. Afinal, "quais as fotografias, quais as crueldades, quais as mortes que nos são mostradas"? (p. 21); "fotografar é enquadrar, e enquadrar é excluir" (p. 53).

Por outro lado, a habituação pode traduzir-se em indiferença; a frequente exposição a estas fotografias pode ter um efeito sedativo, nomeadamente nas privilegiadas regiões do mundo onde as notícias equivalem a entretenimento: "O choque pode tornar-se familiar. O choque pode esgotar-se" (p. 88)

A importância da fotografia é inegável. A imagem que pretende perpetrar vale por inúmeras palavras, grava-se na nossa memória, é base de formulação de opiniões... e é por isso que desempenha um papel fulcral não apenas na manipulação consumista de que somos diariamente alvos, mas também num tipo de manipulação bem mais relevante. 


📖 frases preferidas:
"Nenhum «nós» deveria ser dado por garantido quando se trata de olhar para o sofrimento dos outros" - p. 15
"A memória congela as imagens; a sua unidade de base é a imagem individual." - 29
"A fotografia é como uma citação, uma máxima ou um provérbio" - 29
"Apenas a provocação: podes olhar para isto? Há a satisfação de se ser capaz de olhar para a imagem sem estremecer. Há o prazer de estremecer" - 48
"Há beleza nas ruínas" - 82
"Mas toda a política, como toda a história, é concreta. (Evidentemente, ninguém que realmente pense na história pode levar a política a sério)" - 86
"As pessoas querem chorar. O Pathos em forma de narrativa nunca cansa" - 89
"A compaixão é uma emoção instável. Precisa de ser traduzida em acção, senão desfalece" - 107
"Os que se mostram perenemente surpreendidos por a depravação existir, que continuam a sentir-se desiludidos (mesmo incrédulos) quando confrontados com a evidência daquilo que os humanos são capazes de infligir sob a forma de sinistras atrocidades impostas a outros humanos, não atingiram ainda a idade adulta moral ou psicológica. Ninguém, a partir de uma certa idade, tem o direito a tal tipo de inocência, de superficialidade, a tal grau de ignorância ou amnésia" - 119
"A memória é, dolorosamente, a única relação que podemos ter com os mortos" - 120




✏ Sontag foi uma das mais importantes e influentes intelectuais norte-americanas da segunda metade do século xx. Foi professora universitária, activista na defesa dos direitos das mulheres e dos direitos humanos em geral, foi ficcionista e ensaista frequentemente premiada e amplamente traduzida. A sua escrita foi presença assídua nas publicações The New Yorker, The New York Review of Books, The New York Times, The Times Literary Supplement, Art in America, Antaeus, Parnassus, The Nation, e Granta, entre outras. Susan Sontag teve um filho, David Rieff - editor dos diários inéditos, com o título Reborn, a publicar em breve pela Quetzal -, e viveu os últimos anos da sua vida com a fotógrafa Annie Leibovitz. Susan Sontag nasceu em 1933 em Nova Iorque, cidade onde morreu, em 2004.

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