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0 São Manuel Bom, Martir | Opinião


Wook.pt - São Manuel Bom, MartirSão Manuel Bom, Mártir é um dos mais marcantes textos existencialistas de Unamuno. Nele, o autor retrata o drama de um sacerdote que é incapaz de acreditar na imortalidade mas que, no entanto, dedica a sua vida a dar esperança de vida eterna aos seus paroquianos. A importância de São Manuel Bom, Mártir (inicialmente divulgada em La Novela de hoy) logo foi reconhecida e, no pequeno prólogo que precedeu a citada edição, referia que «esta novelazinha há-de ser no futuro uma das minhas obras mais lidas e apreciadas como uma das mais características de toda a minha produção romanesca». E acrescentava: «E quem diz romanesca diz também filosófica e teológica. Assim penso eu, que tenho a consciência de ter posto nela todo o meu sentimento trágico da vida quotidiana.» O apreço por esta pequena obra-prima, considerada como a melhor novela de Unamuno, não parou de crescer com o passar do tempo. Obra de maturidade e de síntese, resume e expressa o seu «sentimento trágico da vida quotidiana».


Autor: Miguel de Unamuno
Editor: Difel (2006) 
Páginas: 82
Original: San Manuel Bueno, mártir (1930) 

opinião
★★★★

'Não há outra vida eterna além desta...que a sonhem como eterna...eterna de poucos anos...' (p. 62)

Num texto muito simples, Miguel de Unamuno, coloca a fé em perspectiva - mesmo sendo a religião o proverbial ópio do povo não exercerá uma influência positiva nos crentes? Ou será melhor a completa desilusão e falta de esperança, um quotidiano marcado pela certeza de que nascemos para morrer.
'- E o povo - disse eu -, acredita realmente?
- Sei lá!... Acredita sem querer, por hábito, por tradição. E o que faz falta é não acordá-lo. E que viva na sua pobreza de sentimentos para não adquirir tonturas de luxo. Bem-aventurados os pobres de espírito.' (p.48)

É com esta dúvida que vive o Padre Manuel - muito estimado por toda a comunidade de Valverde de Lucerna - professar a fé cristã permitindo aos fiéis sonhar com uma existência melhor ou desvirtuar a vida de significado espiritual. Mesmo não acreditando ele próprio na religião que pratica, será intrujice doutriná-la se o resultado por benéfico para o povo?
'que se consolem de ter nascido, que vivam o mais contentes que puderem na ilusão de que tudo isto tem uma finalidade.' (p. 59)

Ângela, a narradora desta história, e o seu irmão Lázaro descobrem o segredo do padre, o motivo pelo qual parece ter 'uma infinita e eterna tristeza que protege com uma heróica santidade dos olhos e dos ouvidos dos outros' (p. 27). Mas Lázaro que chega do estrangeiro com ideias anticlericais e progressistas, opondo-se de forma veemente às 'aldeanices' uma vez que na aldeia, dizia, 'uma pessoa entontece, embrutece e empobrece', acaba por se 'converter' graças à honestidade do padre.
'Nem o povo sabe o que é a fé, nem porventura se preocupa muito.(p.81)'


Frases Preferidas:'e desses livros (...) eu devorei sonhos sendo ainda criança' (p. 10) 
'Pensar ocioso é pensar para não fazer seja o que for ou pensa demasiado no que se fez e não no que há para fazer' (p.21) 
'Religião verdadeira? Todas as religiões são verdadeiras enquanto fazem viver espiritualmente os povos que as professam, enquanto os consolam de terem tido de nascer para morrer, e para cada povo a religião mais verdadeira é a sua, a que ele fez.' (p. 48) 
'Não protestemos. O protesto mata o contentamento.' - 56


Miguel de Unamuno y Jugo nasceu a 29 de Setembro de 1864 em Bilbau, cidade em que viveu toda a infância e adolescência. Porém, foi em Salamanca que se fixou e permaneceu quase ininterruptamente o resto da sua vida e onde faleceu no último dia do ano de 1936, depois de uma intensa vida social, política, académica e intelectual. Cursou Filosofia e Letras na Universidade de Madrid, vindo a ser nomeado reitor da Universidade de Salamanca, cargo do qual seria destituído várias vezes por razões políticas. Apesar da sua conturbada vida política, Unamuno permaneceu um escritor infatigável, produzindo mais de três dezenas de obras que vão da filosofia ao romance, à poesia e ao teatro. Vida de Dom Quixote e Sancho (1905), Do Sentimento Trágico da Vida (1913) e A Agonia do Cristianismo (1925) contam-se entre as principais obras daquele foi designado, por força do seu activismo e constante crítica das autoridades, o "Prometeu Espanhol".




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