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0 Tudo o que Ficou por Dizer | Opinião


"Lydia morreu. Mas eles ainda não sabem."

Começa assim o avassalador romance de Celeste Ng. É de manhã, a família desperta para o pequeno-almoço. O pai, a mãe, o filho mais velho e a filha mais nova. Há porém um lugar vago à mesa e um silêncio que pesa. A filha do meio, a favorita dos pais, está ausente.

Como morreu, ou porque morreu, é para já um enigma. Há um inquérito, dúvidas, suspeitas e acusações. E uma teia delicada de dramas antigos, de segredos, que se vão desvendando pela voz (e pelo olhar) de cada um dos elementos da família. Apaixonamo-nos por eles, tão expostos (e tão frágeis) nesse momento de perda. Conhecemos a mãe, loura e de olhos azuis, que abandonou o sonho de uma vida pela filha - a quem depois virá a exigir o impossível. O pai, de ascendência chinesa, que projecta na única filha de traços ocidentais a sua própria integração na América. E conhecemos os irmãos de Lydia, a quem foram dadas apenas as sobras do amor - mas que nem por isso deixaram de a amar.

Tudo o que Ficou por Dizer é um romance pungente, narrado numa voz terna, por vezes poética, sempre precisa. É uma obra sobre os não-ditos, os abismos que se abrem nas famílias, os esquecimentos do amor. E sobre esse enorme mistério chamado Lydia, que na hora da sua morte ofereceu à família, por fim, uma hipótese de redenção.


Autor: Celeste Ng
Editor: Edições Asa (Abril, 2016) 
Género: Romance
Páginas: 248
Original: Everything I Never Told You (2014) 


opinião
★★✩✩✩

Embora tenha ficado entusiasmada com a ideia geral do livro, não gostei da forma como esta foi concretizada; Tudo o Que Ficou por Dizer frustrou-me pela sua falta de autenticidade, em grande parte devida à falta de credibilidade e identidade dos próprios personagens.

A história seria a de uma família americana dos anos 70, cujos pais, 'bem intencionados', na tentativa de poupar os filhos aos traumas/problemas que eles próprios viveram (a mãe por não poder ter seguido carreira em medicina e o pai porque, devido à sua ascendência chinesa, nunca sentiu que era aceite) 'forçam' a filha do meio, Lydia, a seguir pelo caminho que eles estipularam (a mãe sendo muito exigente nos estudos e o pai pressionando-a para que faça amigos e se integre). Quando Lydia morre afogada, vêm à tona alguns segredos e a morte desta adolescente pode acabar por significar uma oportunidade de redenção para os restantes membros da família.

O problema é que é difícil acreditar que estes pais agiam sob boas intenções, sem realmente reparar nos danos que provocavam, quando se comportam como se tivessem apenas uma filha, quando fica bem patente que Lydia é a preferida, com precedência em tudo, quando se ESQUECEM que têm uma terceira filha no sótão. É pouco credível que um homem traumatizado pela marginalização e preconceito por ser diferente, tendo sido gozado muitas vezes ao longo da sua vida, faça igualmente do filho alvo de gozo quando está precisamente a tentar contrariar o efeito. Não é possível que uma mãe não perceba a extensão do trauma que pode provocar ao abandonar os filhos, desaparecendo sem avisar para cumprir os seus sonhos pessoais. Não é provável que, depois de anos de existência revoltada contra a sua própria mãe por esta desejar outra coisa para a filha, impossibilitando-a de corresponder às suas expectativas, a mãe de Lydia não coloque a hipótese de a sua filha não querer aquele futuro, de se poder vir a revoltar também.

Deste par de pais perversamente egocêntricos, completamente alheios às personalidades, desejos e necessidades dos seus filhos, que não estabelecem real comunicação com nenhum deles, não se poderia esperar descendência que não agisse de forma semelhante. Contribuindo para a disfuncionalidade da família, os miúdos guardam segredos que poderiam fazer a diferença e agem egoistamente. Todos os membros desta família são extremamente egoístas, prendem-se uns aos outros, servem de peso impedindo que qualquer um deles possa 'voar', apenas para que eles próprios possam continuar confortáveis. Lydia não quer que o irmão cumpra o seu sonho de ir para Harvard porque não quer ficar sozinha, sem o seu companheiro de desabafos e chega a esconder a carta de admissão. Nath desliga-se completamente da irmã quando surge uma oportunidade de sair dali e livrar-se da dinâmica patológica daquela família, onde a atenção vem sempre acompanhada de expectativas. Os pais, por tudo o que disse antes, vivem centrados neles próprios e não olham sequer para os filhos como tendo personalidades individuais e diferentes potenciais. Depois da morte de Lydia, isolam-se na sua dor sem querer saber como estão os filhos a lidar com a perda.

Por tudo isto, é muito difícil sentir empatia por estes personagens. É esperado do leitor que se interesse pelo bem-estar desta família e que se sensibilize com as suas dificuldades, mas eu limitei-me a observar tudo de longe com enfado, sem ter qualquer interesse pela segurança e bem-estar de qualquer um deles. A única personagem com a qual me comovi um bocadinho foi Hannah, a mais nova, por esta viver pelos cantos da casa, atenta ao que os outros dizem/fazem, enquanto mendiga por um bocadinho de atenção.

Assim, gostei moderadamente da escrita da autora que me pareceu bem-sucedida no revezamento entre passado, presente e futuro. Tirando isso, o livro pareceu-me repetitivo e aborrecido; quando completamente resolvido, o enredo não é sequer interessante ou original e, pessoalmente, não me pareceu que a redenção fosse realmente atingida; não vi crescimento pessoal e passado o choque da morte de Lydia parecem-me o tipo de pessoas que voltariam exactamente ao mesmo... E se nem o principal 'objectivo' do livro é cumprido ficamos com um grande nada nas mãos.




"What emerges is a deep, heartfelt portrait of a family struggling with its place in history, and a young woman hoping to be the fulfillment of that struggle. This is, in the end, a novel about the burden of being the first of your kind — a burden you do not always survive." - The New York Times

"Everything I Never Told You is an exquisitely crafted gem of a literary mystery with scarcely a false step throughout. Neither heart-warming nor bleak, Everything I Never Told You captures the inexorability of life, the way small slights can add up to an existence of desperate solitude and the way minor breakdowns can set your family on a path to collapse. And yet, the warmth with which Ng considers her characters provides testimony to the goodness that can be found in people — though this, perhaps, only makes the central tragedy all the more gut-wrenching." - The Huffington Post

""Everything I Never Told You" is an engaging work that casts a powerful light on the secrets that have kept an American family together — and that finally end up tearing it apart." - Los Angeles Times








Celeste Ng cresceu numa família de cientistas. Formou-se na Universidade de Harvard e tirou um mestrado em Belas Artes na Universidade de Michigan, onde recebeu uma bolsa Hopwood, destinada a jovens escritores. Começou por publicar pequenas ficções e ensaios em revistas da especialidade, tendo recebido o prémio Pushcart (que premeia textos literários publicados em revistas). Vive em Cambridge (Massachusetts) com o marido e o filho.
Tudo o que Ficou por Dizer, bestseller do New York Times, foi traduzido em mais de 20 países.



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