Goodreads

Destaques

0 O Livro de Aron | Opinião


Pela mão do pequeno Aron, somos levados a conhecer a Polónia de 1939, onde ele e a família vivem. Pouco tempo depois, enquanto judeus, são conduzidos ao gueto de Varsóvia, onde a crueldade, a fome e a doença destroem as vidas de quem aí foi aprisionado. Porém, Aron e um grupo de amigos conseguem ajudar as famílias, esgueirando-se do gueto para fazer contrabando.

Num relato comovente e intenso, Jim Shepard mostra-nos, através da voz de uma criança, como é possível manter a dignidade humana nas condições mais adversas.


Autor: Jim Shepard
Editor: Editorial Presença (Março, 2016) 
Género: Romance
Páginas: 176
Original: The Book of Aron(2015) 
 Andrew Carnegie Medal Nominee for Fiction (2016)
 Kirkus Prize Nominee for Fiction (Finalist) (2015)


opinião
★★★✩✩
A minha opinião sobre este livro está muito dividida entre a compreensão daqueles que penso serem os objetivos do escritor e aquilo que senti ao lê-lo - conceitos, neste caso, estranhamente opostos.

Ao escolher um narrador de 10 anos que sente na pele as atrocidades cometidas durante a invasão da Polónia pela Alemanha Nazi, Sheperd coloca-nos mesmo no centro do que acontece nos guetos de Varsóvia. Os alemães começam por "limpar" as ruas de judeus, empurrando-os para bairros que se degradam de dia para dia. As ruas enchem-se se pessoas doentes (tifo) e esfomeadas, as condições de higiene estão cada vez mais comprometidas, a perda de amigos e familiares passa a ser uma constante.

Como seria de esperar, assistir ao abuso praticado nos seus pais acaba por mudar as crianças de Varsóvia. De forma a sobreviver, estas crianças elaboram esquemas de roubo e contrabando, formando bandos e associações "criminosas". Esta luta pela sobrevivência acaba por transformá-las, tornando-as frias e insensíveis, permitindo-lhes desligarem-se dos problemas e necessidades alheias.

Esta noção é especialmente transmitida através de Aron que pertence a um destes grupos de crianças e tem fama de não querer saber de ninguém além de si próprio. Não é difícil perceber o motivo desta "adaptação" de carácter quando pensamos no que estas crianças perderam, no que foram obrigadas a assistir e no que foram obrigadas a fazer e a suportar para se manterem vivas. Rodeadas de adultos desumanizados por uma egoísta mas instintiva necessidade de auto preservação, muitas destas crianças estavam por conta própria. À medida que a situação em Varsóvia vai piorando, nem todos se apercebem do que realmente se passa nem do que poderá acontecer no futuro, o que se reflete nas suas ações e escolhas.

O problema é que, ao criar um narrador tão "desligado", como pretendia, Sheperd dificulta que nos liguemos a ele. Os relatos de Aron, muitos deles de episódios terríveis, são extremamente factuais e muito pouco emocionais. A narrativa afasta-se tanto da seriedade experiência propriamente dita que parece que Aron não vivenciou realmente o que está a descrever, o que lhe tira realismo e credibilidade. Compreendo que Aron se tenha separado de si mesmo para auto proteção, mas isso não significa que goste de ler um livro escrito sob um ponto de vista deste género. Talvez se esta transformação fosse mais progressiva eu acabaria por apreciar mais o livro; parte do problema é que esta frieza de Aron acompanha-o desde o início.

Em relação à personalidade de Aron, um dos episódios que mais que esclareceu foi este: quando o pai [com quem percebemos que tem uma relação difícil, mas sem conhecermos concretamente os motivos] lhe diz que só os de carácter forte conseguem corrigir o seu caminho e começar de novo, que os cobardes não o conseguem fazer, Aron partilha connosco como era terrível ter que ser como ele era…

Além de não apreciar o estilo narrativo escolhido pelo autor, o número de coisas que ficam por responder, não só no final mas ao longo da história, fazem a balança pender para o lado negativo. Sem grande introspeção por parte de Aron somos obrigados a ler nas entrelinhas; embora perceba que isto foi feito para aumentar o impacto do que está a acontecer, comigo não funcionou dessa forma.

Por outro lado, gostei muito de algumas noções e mensagens que o livro nos passa, como por exemplo: o amor nem sempre é dado àqueles que o merecem; as crianças merecem respeito, não só pelo que são mas pelo que virão a ser; podemos aceitar o nosso destino ou tentar influenciar/contrariar os desenvolvimentos. As melhores mensagens são passadas por Korczak. Responsável pelo orfanato onde Aron acaba por ir parar.

Assim, O Livro de Aron não se destaca entre os livros que li sobre o Holocausto porque, pessoalmente, não gostei da falta de emoção com que este episódio histórico tão sensível foi abordado, embora compreenda o porquê do autor o querer construir desta forma e as ramificações de pensamento que nos permite seguir partindo do que escreve.

Este livro não é realmente sobre Aron mas sim sobre as crianças apanhadas no Holocausto e sobre o homem que se recusou a deixá-las para trás - assim sendo, tendo escolhido outro ponto de vista/narrador, penso que o escritor teria sido mais bem sucedido.





"This novel about Janusz Korczak, who ran an orphanage in the Warsaw ghetto and followed his charges to Treblinka, is a slim masterpiece" - The Guardian

"Let’s set aside puffery about the best novel of the month or even the year; Shepard has created something transcendent and timeless in this slim masterpiece — a portrait of an exhausted but determined man, locked in a futile battle he will not concede." - The Washington Post

"Shepard's talent as a writer transforms meticulous research into a “stark masterpiece” that explores the dark side of the human soul." - The Star









Nenhum comentário:

Postar um comentário