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0 Viagens na Minha Terra | Opinião

Em Viagens na Minha Terra, publicado inicialmente em folhetim entre 1845 e 1846, Almeida Garrett descreve a viagem que fez entre Lisboa e Santarém, bem como as suas impressões sobre os locais por que passou.

No meio destas deambulações, conta a história de Joaninha, a menina dos rouxinóis, de Carlos, que encarna o herói romântico, e de Frei Dinis, entrelaçando a tragédia que liga estas personagens com as suas crónicas de viagem.


Autor: Almeida Garrett
Editor: Civilização (2013)
Género: Romance
Páginas: 232


opinião
★★★★★ (5/5)

«Estas minhas interessantes viagens hão de ser uma obra-prima, erudita, brilhante de pensamentos novos, uma coisa digna do século (...) a minha obra é um símbolo... é um mito, palavra grega, e de moda germânica, que se mete hoje em tudo e com que se explica tudo... quando se não sabe explicar.» - p. 13


Foi o estilo de prosa, acima de tudo, que me cativou em Viagens na Minha Terra. De Lisboa a Santarém, o autor reflete sobre a situação política e social do país, simultaneamente narrando o trágico romance entre Carlos e Joana, enredados num drama familiar.

Garrett exibe grande sabedoria nas suas observações, recorrendo a uma escrita variada e moderna, minucioso na escolha das palavras. Gostei muito do sentido das suas divagações e críticas; o romance, pouco original, decorrente durante a guerra civil (século XIX), interessou-me «apenas» pela sua comparação simbólica à realidade vivida no país, refletindo o embate entre ideais distintos.
«Foi sempre ambiciosa a minha pena».



Frases Preferidas:
«o povo, que tem sempre melhor gosto e mais puro do que essa escuma descorada que anda ao de cima das populações e que se chama a si mesma por excelência a Sociedade.» - p. 8
«Este necessário e inevitável reviramento por que vai passando o mundo há de levar muito tempo, há de ser contrastado por muita reacção antes de completar-se.» - p. 9
«O senso comum virá para o milénio: reinado dos filhos de Deus! Está prometido nas divinas promessas... como el-rei da Prússia prometeu uma constituição; e não faltou ainda, porque... porque o contrato não tem dia; prometeu, mas não disse para quando.» - p. 14
«A virtude é o galardão de si mesma» - p. 15
«mas o antigo, que dura ainda, é porque tem achado na experiência a confirmação que o moderno não tem.» - p. 15
«Andai, ganha-pães, andai; reduzi tudo a cifras, todas as considerações deste mundo a equações de interesse corporal; comprai, vendei, agiotai. - No fim de tudo isto, o que lucrou a espécie humana? Que há mais umas poucas dúzias de homens ricos. E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, aos trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico. (...) cada homem rico, abastado, custa centos de infelizes, de miseráveis.» - p. 18
«Mas aqui é que me parece uma incoerência inexplicável. A sociedade é materialista; e a literatura, que é a expressão da sociedade, é toda excessivamente e absurdamente e despropositadamente espiritualista!» - p. 19
«Oh! Que ainda me faltava perder mais esta ilusão...» - p. 26
«para a gente achar a desculpa aos defeitos alheios, é considerar, é pôr-se uma pessoa nas mesmas circunstâncias, ver-se envolvido nas mesmas dificuldades.» - p. 31
«São os dois entes mais parecidos da natureza, o poeta e a mulher namorada; vêem, sentem, pensam, falam como a outra gente não vê, não sente, não pensa nem fala.» - p. 52
«O coração humano é como o estômago humano: não pode estar vazio.» - p. 56
«Ora o que não ama, que não ama apaixonadamente seu filho, se o tem, sua mãe, se a conserva, ou a mulher que prefere a todas, esse homem é o tal, e Deus me livre dele.» - p. 56
«Não sei o que é, mas, quando não trabalho eu trabalha não sei quê em mim, que me cansa ainda mais. Bem dizem que a ociosidade é o pior lavor.» - p. 64
«E sei que me não enganam poesias; que eu reajo fortemente com uma lógica inflexível contra as ilusões poéticas, em se tratando de coisas graves.» - p. 68
«E sei que me não namoro de paradoxos, nem sou destes espíritos de contradição desinquieta, que suspiram sempre pelo que foi, e nunca estão contentes com o que é.» - p. 68
«- Pois é relaxação desejar a paz, querer a união, suplicar a indulgência? Não nos manda Deus perdoar todas as nossas dívidas, amar os nossos inimigos?
- Os nossos, sim; os d'Ele, não.» - p. 73
«Duvidar é o único princípio; enriquecer, o único objectivo de toda essa gente.» - p. 74
«Lutava-se com honra então; caía-se com glória; vencia-se muitas vezes morrendo... Agora, é sofrer só.» - p. 82
«Oh! Que existências que eram aquelas quatro! (...) E a maior parte da gente, que é gente, vive assim... E querem, querem-na assim mesmo, a vida; têm-lhe apego! Oh! Que enigma é o homem!» - p. 93
«De um lado e de outro, está a ambição e a cobiça; de um lado e de outro, a imoralidade, a perdição e o desprezo da palavra de Deus. Por isso, vença quem vencer, nenhum há-de triunfar.» - p. 94
«A tudo se habitua o homem; a todo o estado se afaz; e não há vida, por mais estranha, que o tempo e a repetição dos actos lhe não faça natural.» - p. 98
«porque os reflexos do céu na terra são limitados e imperfeitos, como as incompletas existências que a habitam. Se não... invejariam os anjos a vida da terra.» - p. 104
«deste sonhadores acordados que andam pelo mundo e a quem a douta faculdade chama nervosos; em estilo de romance, sensíveis; na frase popular, malucos.» - p. 115
«Veremos! - é a grande resolução que se toma nas grandes dificuldades da vida, sempre que é possível espaçá-las.» - p. 117
«Formou Deus o homem, e o pôs num paraíso de delícias; tornou a formá-lo a sociedade, e o pôs num inferno de tolices.» - p. 120
«O homem - não o homem que Deus fez, mas o homem que a sociedade tem contrafeito, apertando e forçando, em seus moldes de ferro, aquela pasta de limo que no paraíso terreal se afeiçoara à imagem da divindade -, o homem, assim aleijado como nós o conhecemos, é o animal mais absurdo, o mais disparatado e incongruente que habita na terra.» - p. 120
«Imaginar é sonhar: dorme e repousa a vida no entretanto; sentir é viver ativamente: cansa-a e consome-a.» - p. 144
«É falso que o amor seja cego; o amor vulgar pode sê-lo; amor como o meu, o amor verdadeiro tem olhos de lince.» - p. 163
«Eu digo que ele tinha coração de mais: o que é um defeito grande, é um estado patológico e anormal. Fisicamente, produz a morte; e moralmente pode matar também o sentimento.» - p. 174
«Este é um dos muitos pontos em que a religião das tradições deve ser respeitada e criada sem grandes exames, porque nada ganha a crítica em pôr dúvidas, e o espírito nacional perde muito em as aceitar.» - p. 176
«Há três espécies de mulheres neste mundo: a mulher que se admira, a mulher que se deseja, a mulher que se ama. A beleza, o espírito, a graça, os dotes de alma e do corpo geram a admiração. Certas formas, certo ar voluptuoso criam o desejo. O que produz o amor não se sabe; é tudo isto às vezes; é mais do que isto; não é nada disto.» - p. 211

«O amor não está definido, nem o pode ser nunca. O amor verdadeiro; que as outras coisas não são isso.» - p. 212

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