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1 Judas | Opinião


O mundo do jovem Samuel Ash está a entrar em colapso: a namorada abandona-o, os pais declaram falência e ele vê-se obrigado a procurar trabalho, abandonando os estudos na universidade e interrompendo a sua tese de doutoramento - um tratado sobre a figura de Jesus aos olhos dos judeus. 

Nesse momento de desespero, Samuel encontra refúgio e emprego numa antiga casa de pedra situada num extremo de Jerusalém. Durante algumas horas diárias, a sua função é servir de interlocutor a Gershom Wald, um septuagenário com uma vasta cultura. Mas aí mora também Atalia Abravanel, uma mulher enigmática e sensual. 

Na aparente rotina da sua nova morada, o tímido Samuel sente uma progressiva agitação causada pelo desejo que Atalia desperta nele, mas também pelos mistérios que o rodeiam: Quem é realmente Atalia? O que a liga a Gershom? Quem é o dono da casa onde vivem? Que histórias escondem aquelas paredes? Ao mesmo tempo, Samuel retoma a pesquisa para a sua tese, e a misteriosa e maldita figura de Judas Iscariote - a suposta encarnação da traição e da maldade - vai absorvendo-o irremediavelmente.


Autor: Amos Oz
Editor: Dom Quixote (Fevereiro, 2016)
Género: Romance
Páginas: 296
Original: Judas (2014) 

opinião
★★★★★
Judas reúne numa narrativa melancólica, mas muito interessante, tanto ficção como política e religião, expandindo-se em diversas direcções que acabam por se complementar na perfeição.

(ficção)
A atravessar uma fase desmotivante da sua vida, o jovem Samuel decide abandonar os estudos. Acaba por arranjar trabalho numa casa habitada por um velho inválido e uma mulher madura, sedutora e cheia de segredos. O trabalho de Samuel é muito simples; pagam-lhe sobretudo pela sua atenção, pagam-lhe para ouvir.
Nesta casa vive-se entre as sombras; degradados entre lembranças e ilusões. O velho Wald passa os seus dias a afinar argumentos, jogando com palavras e conceitos. Atalia, viúva de guerra, está desiludida com o sexo masculino, vendo-os todos como infantis, dependentes do sucesso pessoal, tornando-se áspera na sua resignação. 
Por seu lado, Samuel, com a sua enorme necessidade de falar, é extremamente (senão demasiadamente) sensível, vivendo com a alma a descoberto. Ligeiramente perdido na vida, sente-se um estranho na própria família, ressentindo-se pela raiva que sente dos pais e por repudiar a submissão dos mesmos.
Há ainda outras personagens que, estando fisicamente ausentes na casa, não deixam de pesar aos que lá vivem.

(religião)
Embora tenha desistido dos estudos, Samuel não desistiu de explorar o tema do seu trabalho de pós-graduação: Jesus sob o ponto de vista dos judeus. Nas suas dissertações, conduz-nos através das evidências da veracidade da fé judaica e as contradições da fé cristã. 
Judas Iscariotes não serve apenas de título ao livro, mas é recorrentemente mencionado ao longo do mesmo. De todos os apóstolos, apenas Judas é  normalmente associado aos judeus quando na verdade tanto Jesus como os apóstolos eram judeus e filhos de judeus. Aqui, Jesus é descrito objectivamente como sendo um homem simples que não se tinha por divino e tencionava apenas reforçar a fé judaica, sem lhe passar sequer pela cabeça a criação de uma nova religião. Por sua vez, Judas é perpetrado como o mais entusiasta dos apóstolos. O primeiro a creditar na deidade de Jesus, Judas teria orquestrado a crucificação para provar  a divindade do mesmo, para todos que a testemunhassem quando Jesus abandonasse a cruz. Com a compreensão de que o plano não correu como esperado veio a agonia e a libertação por enforcamento. 

(política)
Conforme vamos convivendo com as personagens da casa, reconhecemos que as suas vidas foram marcadas pela guerra. Ao aprofundar o ódio árabe pelos judeus, amarrando Israel a duas potências colonialistas (Inglaterra e França) - dois barcos que estavam a afundar, de acordo com a analogia do escritor - Ben Gurion complicou a situação dos judeus, passando os árabes a vê-los como um instrumento do imperialismo. Ébrios de nacionalismo, o derramamento de sangue viria a começar em 1947. 

Apesar de ter gostado muito deste livro, recomendo-o apenas a leitores que tenham genuíno interesse nos tópicos que mencionei - só assim faz sentido a sua leitura. Judas deixa-nos a pensar sobre a veracidade das religiões e as suas origens históricas bem como as condenações, perseguições e sofrimento que as suas ideologias acarretaram ao longo dos tempos. 
Judas mostra-nos também que lugar acabam por ocupar as pessoas entre política e religião. Se por um lado temos personagens que vivem à espera, por outro temos personagens que procuram activamente a verdade.... Qual o sentido de escolhermos facções, de nos opormos a meios pacíficos para resolução de conflitos e até na lógica para a existência de tais conflitos tendo também em conta aquilo que acabam por custar
Amos Oz reforça que a transformação pela força e pela violência não faz qualquer sentido: este método não serve para transformar ódio em amor; não conseguimos converter à força o fanatismo em sensatez e não conseguimos transmutar o sentido de vingança em respeito e amizade. 



Judas (the Hebrew title is The Gospel According to Judas) is an attempt to explore what a traitor is. Oz reaches the conclusion that sometimes, just sometimes, a traitor is the most loving, loyal and the most devout person to the ideals of his people. - Israel Today


Amos Oz nasceu em Jerusalém em 1939. Reside actualmente em Arad, onde se dedica à militância a favor da paz entre palestinianos e israelitas, e é professor de literatura na Universidade Ben Gurion no deserto do Negev. Escritor e jornalista, é autor de uma vasta obra que inclui romances e ensaios traduzidos em mais de trinta línguas. É, desde 1991, membro da Academia da Língua Hebraica. Os seus livros têm recebido as mais importantes distinções internacionais, incluindo o prémio Fémina (1988) prémio da Paz de dos Livreiros Alemães (1992), o prémio Israel (1998), o prémio Goethe (2005) e o prémio Príncipe das Astúrias (2007).


Um comentário:

  1. Romance bem interessante! Espero que gostes! Natália

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