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0 Coração Impaciente | Opinião



Hofmiller, um oficial de cavalaria austro-húngaro, de passagem por uma pequena cidade da fronteira húngara, é convidado para uma festa em casa de um abastado proprietário local, para uma fuga à rotina militar. As instalações são fascinantes, o vinho corre livremente mas, quando o jovem e entusiasmado Hofmiller convida a bela filha do seu anfitrião para dançar, descobre que uma doença a deixou inválida. Este acontecimento aparentemente insignificante irá gradualmente destruir a sua vida, enquanto a piedade e a culpa lhe invadem o coração e o implicam num enredo trágico.


Autor: Stefan Zweig
Editor: Civilização Editora (2013)
Género: Romance
Páginas: 296

opinião
★★★★ (4/5)

«É coisa perigosa, a compaixão; mesmo muito perigosa!» - p. 157

O oficial Hofmiller é um exemplo claro de envenenamento por piedade; tudo começou quando, na sua juventude, como convidado de uma festa na casa dos abastados Kekesfalva, comete o erro de convidar a filha do anfitrião para dançar, desconhecendo que Edith é inválida. A reacção horrorizada da jovem - bem como a predisposição auto crítica de Hofmiller - levam-no a considerar-se em dívida para com ela e, na tentativa de mitigar os efeitos da sua falta de sensibilidade, acaba por dar início a uma amizade com Edith que o arrastará para uma tragédia da qual outros já são cativos.

Como qualquer doente crónico, Edith contamina os que a rodeiam com a sua instabilidade emocional, agravada por uma personalidade caprichosa e modos nervosos/impulsivos. Esta má disposição é apenas atenuada pela nova amizade de Edith, o que traz alegria e alívio a toda a casa. Quanto a Hoffmiller, a consideração com que passa a ser tratado, a satisfação de poder ajudar e a vaidade que acompanha tal sentimento, levam-no a tornar as suas visitas mais frequentes, enredando-se cada vez mais sem se aperceber do compromisso que assume. Além disso, conhecendo apenas o rigor e a impessoalidade do quartel desde tenra idade, Hofmiller descobre na casa dos Kekesfalva o lar que nunca teve.

Apesar de inegavelmente repetitivo e exageradamente melodramático, com Zweig a tentar dar significado a todos os pormenores, gostei muito de ler este livro pela intensidade com que me levou a reagir ao seu conteúdo: tristeza pela condição de Edith mas raiva pela chantagem descarada que leva a termo, comoção pelos esforços de Hofmiller mas frustração pelas decisões que acaba por tomar, irritação pela manipulação de Kekesfalva mas enternecimento pelo seu enorme amor pela filha e compreensão pelo desespero que sente perante a inutilidade de todo o dinheiro que amealhou; ou seja, sempre que observamos uma personagem sob uma lente de piedade a nossa reacção difere da que obteríamos por observação directa, tal como acontece com Hofmiller...

O nosso protagonista passa a viver amargurado entre o querer e o dever, entre a amizade que sente genuinamente por Edith e o amor que lhe garantem ser essencial à sobrevivência dela, entre a vaidade pela sua condição de benemérito e a vergonha/receio de ser ridicularizado pelos seus colegas do quartel.

É assim que, mais tarde, Hofmiller explica como a medalha militar com que foi distinguido não é, na verdade, resultado de bravura e coragem mas sim de covardia e mal-entendidos.

Coração Impaciente deixa bem patente o perigo de a piedade se encontrar na base de sentimentos e acções, mas não sem nos comover também com a sua história.



Frases Preferidas
«Não se deve acreditar sempre no que desejamos» - p. 10

«o homem procura escapar aos perigos que a consciência lhe aponta» - p. 10

«muitas vezes, a coragem não é mais do que o disfarce da fraqueza.» - p. 13

«quando se pretende compor demasiado depressa uma roda no maquinismo de um relógio, quase sempre se estraga todo o andamento.» - p. 15

«Mas assim como as flores, na estufa, atingem desenvolvimento tropical, assim, na escuridão, também só nos ocorrem pensamentos loucos. Confusas, fantásticas, as ideias, em terreno quente, são como cipós que ameaçam esganar-nos; com a velocidade dos sonhos, no nosso cérebro sobreaquecido, perseguem-se, precipitam-se os mais absurdos quadros, as mais disparatadas visões.» - p. 28

«Como não lamentar-se, quando Deus nos fere sem culpa nossa… sem termos feito mal a ninguém?» - p. 40

«Não faz sentido renunciar a um gozo, porque é recusado a outros, proibir a nós mesmos a felicidade, porque outro é infeliz.» - p. 42

«Se pretendêssemos (sobre isto não tenho dúvidas) imaginar toda a desventura que nos cerca e cobre a terra, fugiria toda a possibilidade de sono e todo o riso nos expiraria na boca.» - p. 42

«só quando reconhecemos que valemos alguma coisa para os outros é que compreendemos o sentido e a mensagem da nossa própria existência.» - p. 49

«Pela primeira vez compreendia que toda a espécie de entendimento sentimental liga, na verdade, as forças da alma; um homem só pode avaliar-se quando o vemos livre, à vontade.» - p. 49

«Na alquimia misteriosa dos sentimentos, sempre, imperceptivalmente, à piedade pela desgraça vem misturar-se a ternura.» - p. 51

«nunca as relações entre um são e uma doente logram conservar-se elevadas, inalteráveis.» - p. 52

«O sofrimento prolongado em demasia cansa, em geral, não só o doente, mas também a compaixão dos outros; fortes sentimentos não podem dilatar-se indefinidamente.» - p. 52

«É sinal característico dos muito novos transformar todo o conhecimento em exaltação; sob o domínio da forte e intensa sensibilidade, sempre aspiram a continuar a sentir, a sentir cada vez mais.» - p. 53

«ai os pobres diabos, que veneração sentem diante de tudo o que vale dinheiro!» - p. 58

«E quase sempre sucumbimos à ilusão de que a natureza distingue, pelo aspeto externo, os homens extraordinários, para que o reconheçamos à primeira vista.» - p. 78

«Mas a maldade conserva.» - p. 98

«Quase sempre da união dos contrastes, quando se completam com justeza, resulta a mais completa harmonia.» - p. 121

«pelo desacerto se mede a grandeza de uma paixão.» - p. 123

«não devemos envergonhar-nos de nos termos deixado enganar pela vida. Creia, é abundante graça a nossa pupila não possuir olhar agudo, diagnóstico, o mal-occhio; é felicidade podermos julgar criaturas e coisas sob o aspeto da mais absoluta confiança.» - p. 125

«A medicina nada tem a ver com a moral; a doença em si é já ato anárquico, revolta contra a Natureza; portanto, todos os meios de ataque são lícitos e é-nos permitido usar de todos os meios, todos.» - p. 131

«Somente no princípio é que a compaixão, como a morfina, é benefício para o doente, é remédio; porém, se não sabemos doseá-la, transforma-se em veneno assassino.» - p. 156

«é necessário saber dominar a própria piedade, senão ela causa mais prejuízos do que toda a indiferença… (…) Se todos quiséssemos obedecer à piedade, o mundo pararia. É coisa perigosa, a compaixão; mesmo muito perigosa!» - p. 157

«no mundo, o importante não são as razões, mas os resultados.» - p. 157

«os piores delitos, neste mundo, não são culpa do mal e da brutalidade, mas sim da fraqueza.» - p. 164

«São os únicos que amam com paixão fanática, negra, ardente… Nenhum amor sobre a terra se ergue tão desesperado, tão ávido, como o dos enteados de Deus, os únicos que só podem descobrir justificação para a existência terrena, quando amam e não são amados.» - p. 180

«o mais duro e tremendo martírio para um homem é ser amado contra a sua vontade! Esse é o martírio máximo, é a culpa sem culpa!» - p. 186

«só pela experiência pode o coração conceber os abismos do sentimento.» - p. 186

«Só quem conhece estados de alma semelhantes adquire ouvido para tão secretas ressonâncias.» - p. 210

«Habitualmente, entre o vago desejo e a resolução definitiva, oscilam sempre, e sempre em inúmeras nuances se agitam sentimentos indistintos; pertence ao secreto prazer do coração brincar primeiro com a ideia antes de a realizar.» - p. 210


«Em todas as nossas ações representa a vaidade um dos mais fortes impulsos.» - p. 213


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