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0 Arranha-Céus | Opinião


«Mais tarde, sentado na varanda a comer o cão, o Dr. Robert Laing refletiu sobre os estranhos acontecimentos que nos últimos três meses tinham ocorrido no interior do prédio enorme.»

Num imponente edifício de quarenta andares, o último grito da arquitetura contemporânea, vive Robert Laing, um bem-sucedido professor de medicina, mais duas mil pessoas. Para desfrutarem desta vida luxuosa, não precisam sequer de sair à rua: ginásio, piscina, supermercado, tudo se encontra à distância de um elevador. Mas alguma coisa estranha borbulha por baixo desta superfície de rotina.

Primeiro atacam-se os automóveis na garagem, depois os moradores. Um incidente conduz a outro e, acossados, os vizinhos agrupam-se por pisos. Quando aparecem as primeiras vítimas, a festa mal começou. É então que o realizador de documentários Richard Wilder resolve avançar, de câmara em punho, numa viagem por esta inexplicável orgia de destruição, testemunhando o colapso do que nos torna humanos.

Entre a alucinação e a anarquia, a visão nunca ultrapassada de J. G. Ballard oferece-nos um retrato demencial de como a vida moderna nos pode empurrar, não para um estádio mais avançado na evolução, mas para as mais primitivas formas de sociedade.


Autor: J. G. Ballard  
Editor: Elsinore (Outubro, 2015)
Género: Ficção
Páginas: 224
Original: High-Rise (1975)   



opinião
★★☆☆☆
Repleta de antagonismos mal disfarçados, mexericos profissionais e rivalidade pessoais, a vida neste Arranha-Céus de Ballard evolui rapidamente para o completo caos. A erosão de padrões sociais é uma constante, cresce a discordância e a hostilidade entre grupos de condóminos formando-se uma nova ordem social e psicológica, violentíssima, sem qualquer interesse ou preocupação pelas convenções civilizadas.

O interesse do livro está, sem dúvida, associado à transposição metafórica deste edifício enquanto estrutura social, as diferenças entre classes sociais, comportamento social, a tendência para o instinto primitivo quando em grupo e a ameaça do pensamento coletivo. 

Embora tudo o que disse até aqui torne a leitura muito atraente, o problema é que, para mim, o livro simplesmente não funciona! Conquanto me faça lembrar O Deus das Moscas - que adorei - Arranha-Céus parece não ir a lado nenhum com as suas descrições despropositadamente violentas e observações repetitivas. 

Não nos é apresentado nenhum motivo lógico que despolete esta reação nos moradores do edifício; os pequenos ressentimentos/futilidades mencionados não seriam certamente suficientes para provocar tamanha alteração nas prioridades mentais…o que nos deixa com um enorme «porquê» pendente ao longo de todo o livro: porque é que começou, porque é que se mantém, porque é que estão dispostos a abdicar das suas luxuosas vidas, porque é que negligenciam o próprio conforto, porque é que ninguém denuncia, porque é que regressam todos os dias do trabalho para um sítio destes,… 

Arranha-Céus foi para mim uma desilusão muito aborrecida de ler. Sem qualquer efervescência, demasiado virada para a descrição, a prosa de Ballard entediou-me. E, mesmo tendo em conta a natureza do livro e a mensagem que pretende passar em meio figurativo, a sua implausibilidade é exagerada.

Arranha-Céus foi adaptado ao cinema, com interpretações de Jeremy Irons (O Homem da Máscara de Ferro (1998)), Sienna Miller (Stardust - O Mistério da Estrela Cadente (2007)), Tom Hiddleston (Os Vingadores (2012)), e Luke Evans (Velocidade Furiosa 6 (2013))Em vários países, o filme chegou às salas de cinema em Setembro deste ano. 


«In High-Rise, over the course of three months, a 40-storey tower block housing 2,000 residents – “a small vertical city” – descends from civilisation to tribalism to hunter-gatherer savagery (there is even a suggestion of cannibalism), in a kind of mass psychosis where they retreat from the outside world. Though Ballard was not a political writer in a narrow party sense, it can certainly be read as a premonition of the selfish Thatcherite society to come – a man-eat-dog society as well as a dog-eat-dog one.» - The Guardian





J. G. Ballard nasceu em 1930, em Xangai, na China, onde o seu pai era comerciante. Depois do ataque a Pearl Harbor, toda a família foi deslocada para um campo de prisioneiros civis. Em 1946, voltaram para a Inglaterra. Depois de dois anos em Cambridge, a cursar Medicina, Ballard trabalhou como redactor e como porteiro do Covent Garden. Pouco depois partiu para o Canadá. Sem deixar de escrever para publicações científicas, Ballard publica o seu primeiro romance em 1961, The Drowned World. O seu mais aclamado romance, O Império do Sol, publicado pela primeira vez em 1984, ganhou o Guardian Fiction Prize e o James Tait Black Memorial Prize, tendo sido finalista do Booker Prize. Este seu romance foi adaptado para cinema por Steven Spielberg. Gente do Milénio é o seu mais recente romance, depois de Noites de Cocaína (Quetzal Editores, 2003).



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