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1 A menina que engoliu uma nuvem do tamanho da torre Eiffel | Opinião


Providence Dupois, uma carteira parisiense, precisa de viajar rapidamente para Marraquexe, a fim de resgatar a filha adotiva que se encontra gravemente doente. Contudo, quando está prestes a partir, um vulcão islandês de nome impronunciável desperta do seu sono profundo e paralisa todo o tráfego aéreo europeu.

Desesperada por cumprir a sua promessa de reencontro, esta jovem mãe vai tentar tudo para chegar junto da filha, e, esgotadas todas as vias do possível, resta-lhe apenas uma última hipótese: voar. Para empreender uma tarefa tão audaz, contará com a ajuda preciosa de personagens peculiares, seja Léo Machin, um jovem apaixonado que emana um perfume de bondade e sabão Marseille, Tchang, um chinês que fala como se fosse um pirata, ou monges tibetanos que, quando não estão a rezar, ouvem Julio Iglesias.

Comovente mas pleno de humor, A menina que engoliu uma nuvem do tamanho da torre Eiffel é uma aventura que nos ensina que nada é impossível quando o amor de uma mãe é forte o suficiente para a fazer descolar até às nuvens. Dizem que o amor dá asas… Estão prontos para voar?


Autor: Romain Puértolas  
Editor: Porto Editora (Setembro, 2015) 
Género: Romance
Páginas: 200
Original: La petite fille qui avait avalé un nuage grand comme la tour Eiffel (2015) 


opinião
★★★★✩


«- Resumindo, o seu carteiro, que é uma carteira, decidiu aparecer-lhe um belo dia na torre de controlo onde trabalha, em fato de banho, quando a praia mais próxima se encontra a centenas de quilómetros, e pedir-lhe autorização para descolar do seu aeroporto a bater os braços como uma galinha.
- Parece-me muito bem resumido.»

Escrevendo com grande originalidade, Romain Puértolas reúne os elementos mais inesperados e combina-os nas situações mais improváveis. O seu tom bem humorado transporta-nos de ironia em ironia através de um enredo que embora se pareça mais com fantasia, é, na verdade, dolorosamente real.

Por muito estapafúrdio que possa parecer, aquele pequeno excerto que adicionei no início resume bem a acção do livro, só falta saber o motivo por que Providence tinha tanta urgência em voar e assim encontramos o elemento central do livro: Zahera, uma menina marroquina de sete anos que sofre de fibrose cística e sonha em ser uma inovadora na profissão de veterinária-austronauta (que, pelo menos para já, ainda não existe...).
Mesmo convivendo diariamente com a doença e as limitações que esta inclui, Zahera não renuncia à beleza da vida; curiosa por aprender sobre tudo, optimista e carinhosa, Zahera protagoniza os momentos mais enternecedores e inspiradores do livro.
Com todos os voos cancelados devido à erupção do vulcão islandês, Providence, que finalmente conseguiu legalizar a adopção de Zahera, vê-se impedida de ir buscar a menina a Marrocos, como prometeu.

Se já lemos Puértolas, sabemos que devemos partir do princípio de que qualquer coisa pode (e vai!) acontecer, no entanto, o escritor acaba por nos surpreender na mesma ao chegar ao final do livro, transformando esta leitura numa verdadeira experiência. Apesar das críticas e zombarias camufladas nas palavras de Puértolas, a verdade é que prosseguimos pela leitura de ânimo leve, divertidos, e nada preparados para o impacto do desfecho, no qual a «aventura» adquire súbita seriedade e novo significado.

Assim, Romain Puértolas termina como começa, deixando-nos desarmados perante o inesperado. No meio de muita diversão e comédia, deparamo-nos com a triste diferença de recursos entre países, com a revoltante realidade de doentes crónicos internados em hospitais que não lhes podem servir de grande assistência, com a injustiça de patologias cujo método de tratamento ainda não está «disponível» para todos, com os repulsivos períodos de concretização de adoção, sempre demasiado longos, e com aquilo a que teimamos dar importância como sociedade, em detrimento de valores mais relevantes.
Deparamo-nos ainda com o amor e, porque merece ser destacado, o amor de mãe.

Frases Preferidas
- Ora bem, eu queria uma coisa impossível
- É mulher, logo, parece-me normal - p. 79

Porque o espírito é bem mais forte do que o corpo. Sempre. A boa disposição também. Um sorriso e uma gargalhada destroem tudo à sua passagem como um enorme buldózer, acabam com a doença, pulverizam a tristeza - p. 28

O riso é o pior que pode acontecer à doença. Há que soltar-lhe uma gargalhada na cara. Nunca perdermos a esperança. Nunca nos darmos por vencidos. Porque a aventura não terminou - p. 28

Porque a vida é um pouco como a maionese. Feita de coisas simples, como gemas de ovo e óleo, que de nada vale apressar, porque com um esforço regular se transforma numa das mais saborosas misturas que há - p. 35

era guiado por uma força na qual a razão não entrava em jogo. Uma força que lhe nascia das regiões mais remotas do coração. Uma força a que chamamos «amor» quando não queremos que seja conhecida como «loucura» - p. 126 
 Romain Puértolas nasceu em Montpellier, em 1975. Quando era novo, queria ser cabeleireiro-trompetista, mas o destino trocou-lhe as voltas. Oscilando entre a França, a Espanha e a Inglaterra, foi sucessivamente DJ, compositor-intérprete, professor de línguas, tradutor-intérprete, comissário de bordo, mágico, antes de tentar a sua sorte como cortador de mulheres num circo austríaco. Rapidamente despedido por ter mãos escorregadias, resolve dedicar-se à escrita compulsiva. Autor de 450 romances num ano, ou seja, 1,2328767123 romances por dia, consegue finalmente arrumar os seus próprios livros numa estante Ikea. Infelizmente, despojado de 442,65 dos seus romances por extraterrestres dotados de uma inteligência e um gosto bem acentuados, Romain Puértolas vê-se reduzido a uma estante estilo caixote de pêssegos periclitante e desesperadamente vazia. Segue atualmente uma carreira de agente da polícia em França e só tem uma coisa em mente: encontrar aqueles que perpetraram o golpe…

A incrível viagem do faquir que ficou fechado num armário Ikea   A menina que engoliu uma nuvem do tamanho da torre Eiffel

Um comentário:

  1. O título não podia ser mais sugestivo. Fiquei com vontade de ler. :)

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