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0 1984 + opinião


1984 oferece hoje uma descrição quase realista do vastíssimo sistema de fiscalização em que passaram a assentar as democracias capitalistas. A electrónica permite, pela primeira vez na história da humanidade, reunir nos mesmos instrumentos e nos mesmos gestos o trabalho e a fiscalização exercida sobre o trabalhador. O Big Brother já não é uma figura de estilo - converteu-se numa vulgaridade quotidiana.

Autor: George Orwell 
Editor: Antígona (2007) 
Género: Romance/Ficção Científica
Páginas: 314
Original: Nineteen Eighty-Four (1949) 
 Prometheus Hall of Fame Award (1984)
 Locus Award Nominee for All-Time Best Science Fiction Novel (1987)


opinião
     ( 5 em 5 )

Que alternativas restam quando nem os poucos «centímetros cúbicos no interior do nosso crânio» nos pertencem? No livro 1984, George Orwell criou uma assustadora reflexão política que evidencia o perigo do totalitarismo, tendo por base o que o próprio testemunhou com os governos Russo e Espanhol.


Experienciamos a vida em Oceânia através de Winston Smith, um trabalhador do Partido cuja mente resiste silenciosamente à exaustiva soberania do Partido, mantendo inédito sentido crítico e ânsia por respostas. Neste mundo, todo o tipo de liberdade foi abolida, seja de expressão, de imprensa, de reunião ou até mesmo de pensamento; consequentemente, todos os que forem apanhados a contrariar as diretivas do Partido simplesmente desaparecem, «vaporizam-se», ou são submetidos a uma disciplina intelectual que os obrigará não só a dizer o que o Partido estipula, mas também a acreditar em cada palavra.

Além de constantemente vigiados através de «telecrãs» e de microfones espalhados por todo o lado, os cidadãos são submetidos a doses constantes de propaganda política que orienta a forma como devem viver as suas vidas, os incita a odiar todos os que se opõem ao Partido e a denunciar comportamentos que possam parecer suspeitos, incluindo as crianças em relação aos próprios pais.

O poder do Partido é reforçado pelo controlo que este detém sobre o passado: alterando constantemente documentos e livros, rebatizando edifícios e até países, modificando datas, impedindo que os cidadãos mantenham documentos/registos/fotografias, o Partido consegue sabotar a memória coletiva e, desta forma, controlar o presente, justificando as suas ações e garantindo que «o Partido tem sempre razão», que as suas previsões são sempre correctas. A opressão do Partido vai ao ponto de criar uma nova língua, uma que não possua os termos que permitem sequer conceptualizar pensamentos revoltosos.

Enquanto passeia pelas decrépitas ruas da cidade de Londres, Winston repara na miséria em que vivem os «proles», mas também em como são os únicos que vivem em relativa liberdade, passando a ver na classe mais baixa da sociedade a única força que poderá um dia subverter o Partido. Nestas ruas está também gravada a «incompetência» do Partido para governar ou apenas o espelho da sua ganância; o esforço e meios gastos para controlar o povo através de avançada tecnologia, não é concordante com a pobreza que se vê.

Com Winston - com as consequências das suas ações «rebeldes» - entramos numa inevitabilidade assustadora. Reeducado à força, através de intimidação psicológica e tortura física, Winston vê-se sem escape e sem esperança; morrer a odiá-los, apesar de submissão total, parece ser a única liberdade possível.

Esta é uma sátira escrita em forma de aviso, expondo possibilidades terríveis, mas não completamente originais, sobre a submissão intelectual do povo, a omnipresença do governo que oprime e controla sem medida, difundindo a sua mensagem através de exaustivas campanhas. 1984 alerta-nos para o perigo dos terríveis -ismos (do comunismo, do fascismo, do nazismo, …, enfim, do totalitarismo), demonstra a relevância da linguagem como concretizador de pensamentos e chama a atenção para a importância de mantermos a nossa identidade, a nossa memória sobre o passado e conhecimento sobre a História.



Frases Preferidas
«Enquanto não tomarem consciência não se revoltarão, e enquanto não se revoltarem não poderão tomar consciência»
«eram como a formiga, capaz de ver os objectos pequenos e não os grandes»
«nos momentos de crise nunca se luta contra um inimigo exterior, mas sempre contra o próprio corpo.»
«já não podia haver amor puro ou puro desejo. Nenhuma emoção era pura, pois em tudo se infiltrara o medo e o ódio.»
«E pensar ele que o céu era igual para toda a gente (…) E as pessoas, debaixo desse céu eram também muito parecidas - por toda a parte, no mundo inteiro, centenas de milhares de milhões de pessoas assim, pessoas ignorando a existência umas das outras, separadas por muralhas de ódio e mentira, e no entanto quase iguais»
«a atmosfera mental dominante deve ser de loucura controlada.»
«A riqueza e os privilégios são mais fáceis de defender quando possuídos em conjunto.»
«os livros melhores são justamente os que nos dizem aquilo que já sabemos.»


✏ George Orwell (1903-1950) é autor de importantes obras de ficção e de não ficção. Em 1945, publicou O Triunfo dos Porcos / A Quinta dos Animais, até hoje a sua obra mais popular a par com 1984, uma sátira pessimista sobre a ameaça de uma tirania totalitária no futuro, publicada em 1949. Serviu na Polícia Imperial na Birmânia (agora Myanmar) e mais tarde lutou do lado dos Republicanos na Guerra Civil Espanhola. Pertenceu à Home Guard, uma importante organização de defesa do exército britânico, e trabalhou como correspondente de guerra para a BBC durante a Segunda Guerra Mundial. George Orwell morreu em 1950, em Inglaterra, vítima de tuberculose. Escreveu também, entre outras obras, Dias da Birmânia (1934), O Caminho para Wigan Pier (1937) e Homenagem à Catalunha (1938).


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