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0 O Livro dos Amores Risíveis + Opinião


Escrito entre 1959 e 1968, O Livros dos Amores Risíveis constitui um todo coerente e perfeito, não obstante a sua forma aparentemente dispersa. E o tema da obra, mau grado a ilusão de leveza que o próprio título sugere, é não tanto o risível, o ridículo e o riso, quanto o limiar a partir do qual todo o jogo se converte em realidade, toda a ironia se torna um pesadelo.

Autor: Milan Kundera 
Editor: BIS (2014)
Género: Romance
Páginas: 256







opinião
    (4 em 5)

Já antes tinha ficado surpreendida com a simplicidade com que Milan Kundera transmite conclusões pertinentes sobre a vida. Mesmo sem nos revermos ou identificarmos especialmente com a história, é fácil compreender o seu fundamento, validando as dúvidas e objectivos das personagens. Neste livro, «O Livro dos Amores Risíveis», Kundera repete a proeza recorrendo a um conjunto de pequenas histórias que, embora independentes, acabam por se complementar na perfeição.

Roubando seriedade à vida, Kundera aborda o amor de forma bem disposta e cheia de humor mas também melancólica e nostálgica, explorando crises existenciais e dificuldades semeadas pelo desejo, o sexo e a dinâmica das relações entre amantes.

Embora tenha apreciado mais umas histórias que outras, todas têm tópicos interessantes que conduzem à reflexão. Absurdamente, acabamos a rir-nos da tragédia alheia, como se fosse algo que nunca nos apoquentou também a nós, como se nunca nos tivessem passados as mesmas dúvidas pela cabeça...

Frases Preferidas
«Atravessamos o presente de olhos vendados.» (p. 11)
«Há momentos na vida em que temos de bater em retirada, em que temos de abandonar as posições menos importantes a fim de salvaguardar as posições vitais. Ora o último reduto parecia-me ser o meu amor.» (p. 38)
«Era inútil atacar racionalmente a sólida barreira irracional de que é feita, como se costuma dizer, a alma feminina.» (p. 39)
«tu pensas que tanto vale uma mentira como outra. (...) Mas há coisas sobre as quais não posso mentir. Há coisas que conheço a fundo, cujo sentido compreendo, e que amo. Com essas coisas não brinco. Mentir sobre elas seria rebaixar-me e isso não posso fazer, não me peças isso, nunca o farei.» (p. 40)
«Uma confiança demasiado ardente é a pior das aliadas.» (p. 65)
«Realmente serei eu capaz, um dia, de renunciar mesmo a esses gestos que significam juventude?» (p. 69)
«Até mesmo a felicidade que causa a presença do amado, é preciso estar-se sozinha para a gozar plenamente.» (p. 76)
«Os desejos pueris escapam a todas as armadilhas do espírito adulto e, por vezes, prolongam-se até à longínqua velhice.» (p. 80)
«Alguém que foi nosso, que nos ama e a quem amamos, transforma-se no nosso espelho, é a medida da nossa importância e do nosso mérito.» (p. 102)
«É precisamente nessa ausência de razão que reside esse fragmento de liberdade que nos é concedido e para o qual devemos tender incansavelmente para que subsista, neste mundo de leis implacáveis, um pouco da desordem humana.» (p. 104)
«noventa e nove por cento das palavras que se pronunciam são palavras vãs.» (p. 134)
«o amor tem apenas um critério: no termo do verdadeiro amor há a morte e só o amor, no termo do qual está a morte, é amor.» (p. 135)
«Ou um velho aceita ser o que é, quer dizer, esse resíduo lamentável de si próprio, ou então não aceita. Mas o que pode fazer se não o aceitar? Resta-lhe fingir que não é o que é; resta-lhe apenas recriar, através de uma simulação laboriosa, aquilo que já não existe, aquilo que está perdido; resta-lhe inventar, representar, mimar a sua alegria, a sua vitalidade, a sua cordialidade. Fazer reviver a sua imagem de jovem, esforçar-se por confundir-se com ela e por substituí-la a si próprio.» (p. 141)
«nunca se recupera o que se deixou fugir.» (p. 155)
«todo o valor do ser humano reside naquela faculdade de se ultrapassar, de existir exterior a si mesmo, de existir noutro e para outro.» (p. 165)
«Não se deve estar sempre a voltar ao passado. Já basta termos de lhe dedicar tanto tempo, contra a nossa vontade, a esse passado!» (p. 167)
«Que horror! Pensar que posso ficar como elas! Pensar que posso vir a ver o Mundo com os mesmos olhos míopes!» (p. 200)
«como todos aqueles que amam com verdadeiro amor, ela desejava um amor calmo e escondido.» (p. 203)
«Mas na vida acontece sempre assim: pensamos estar a representar um papel numa determinada peça e nem sequer nos apercebemos de que nos mudaram discretamente o guião, de tal modo que damos por nós, sem saber como nem porquê, a representar noutro espectáculo.» (p. 242)
«porquê dizer sempre a verdade? Que nos obriga a isso? E porque devemos considerar a sinceridade como uma virtude? Supõe que encontras um louco que te diz que é um peixe e que somos todos peixes. Vais discutir com ele? (...) isso queria dizer que aceitas ter uma discussão com um louco e que tu próprio és louco. (...) E levar a sério algo de tão pouco sério é perdermos nós próprios toda a nossa seriedade. Eu devo mentir para não levar loucos a sério e para não me tornar eu próprio louco.» (p. 252)


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