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0 A Rapariga dos Olhos de Ouro + Opinião

A Rapariga dos Olhos de Ouro by Honoré de Balzac
«...um inventário dantesco da imoralidade parisiense. A cidade é governada por dois poderes, “o ouro e o prazer”, imagens que se fundem na rapariga dos olhos de ouro. Quando conhece De Marsay num jardim, Paquita Valdès fica pasmada, facto que o jovem De Marsay atribui ao magnetismo animal das afinidades electivas. (…) O final de A Rapariga dos Olhos de Ouro antecipa um momento clássico do cinema (…) semelhante à famosa cena de Psycho, o filme de Alfred Hitchcock (1960).» [Camille Paglia, Sexual Personae]»
«"La Fille auz yeux d'or era, com Ferragus e "La duchesse de Langeais, parte do projecto inacabado da "Histoire des Treize".»

opinião
My rating: 4 of 5 stars

«A vida é uma singular comédia.» (p. 72)

São escritores como Balzac que elevam a prosa ao estatuto de arte e tornam o simples ato de ler num enorme prazer.

Foi então pela escrita do autor que me rendi a «A Rapariga dos Olhos de Ouro», mais do que propriamente pelo melodramático romance. Gostei muito do cuidado analítico e do tom crítico com que Balzac nos fala da sociedade parisiense do século XIX (Capítulo I: «Fisionomias Parisienses»), ridicularizando-a e despindo-a de mérito uma vez após a outra. Uma sociedade que acaba por não estar assim tão longe da nossa, como gostaríamos de nos gabar que está. Este Parisiense vive avidamente, obcecado com as aparências, buscando tudo com ferocidade sem se deixar conquistar realmente pelo que quer que seja. Para ele o dinheiro é sinónimo de poder e há que obtê-lo a qualquer custo, tornando-o o preliminar, mas também o próprio intuito, da corrupção. Aqui, ouro e prazer são o senhor universal; e o desejo por um, ou por ambos, acaba por entorpecer os sentidos.
«Todos estão identicamente cariados até aos ossos por cálculo, por depravação, por um brutal desejo de vencer, e, sondando-os bem, encontraríamos em todos uma pedra no coração.» (p. 31)

Cheio de pontos que merecem uma pausa para reflexão, este livro acabou por me surpreender pela inclusão de tópicos tabu que não esperava encontrar, tais como escravidão sexual e lesbianismo. A precipitação com que me chegou o final - também ele com resoluções que não esperava - acabou por me deixar em ligeiro choque, pairando sobre os últimos parágrafos alguns minutos depois de já terminada a leitura.

Com parágrafos grandes e escrita muito trabalhada, o tamanho do livro e o ritmo que adquire no final impediram que a leitura se tornasse aborrecida. Gostei muito e fiquei muito satisfeita com a tradução (Domingos Monteiro - Relógio D'Água) que por vezes tanto prazer no rouba às leituras.


Frases Preferidas
«Não se trata de rostos mas de máscaras. Máscaras de fraqueza, máscaras de força, máscaras de miséria, máscaras de alegria, máscaras de hipocrisia; e todos extenuados, todos marcados pelos sinais indeléveis duma ofegante avidez.» (p. 9)
«À força de se interessar por tudo, o Parisiense acaba por não se interessar por nada. (...) indiferente na véspera com o que o entusiasmará no dia seguinte, o Parisiense vive como uma criança, seja qual for a sua idade. Ele fala de tudo, consola-se com tudo, troça de tudo, esquece tudo, quer tudo, saboreia tudo, toma tudo com paixão e deixa tudo com desinteresse» (p. 10)
«Então esses quadrúmanos põem-se a perder as noites, a padecer, a trabalhar, a praguejar, a jejuar e a caminhar. Todos excederam as suas forças para ganhar esse ouro que os fascina.» (p. 11)
«(...) resumindo o seu alcance social numa existência onde o pensamento e o movimento se combinam menos para criar alegria do que para regularizar a acção da dor.» (p. 12)
«(...) todos os dentes servem para morder e tudo estimula o movimento ascensional do dinheiro.» (p. 17)
«(...) para obedecer ao senhor universal, o prazer ou o ouro, é preciso devorar o tempo, espremê-lo, encontrar mais de vinte e quatro horas no dia e na noite, enervar-se, matar-se, vender trinta anos de velhice por dois anos de um repouso doentio. Só o operário morre no hospital quando se operou o seu último termo de definhamento, enquanto o pequeno-burguês persiste em viver e vive, mas cretinizado.» (p. 16)
«O tempo é o seu tirano: falta-lhes e escapa-lhes, e eles não podem nem estendê-lo nem diminuí-lo.» (p. 18)
«Onde põem as pessoas o seu coração? Onde? Eu não sei. Mas eles deixaram-no nalgum lado, se é que têm um.» (p. 18)
«A qualquer hora, o homem de dinheiro pesa os vivos, o homem dos contratos pesa os mortos, o homem de lei pesa a consciência. Obrigados a falar continuamente, todos substituem a ideia pela palavra, o sentimento pela frase e a sua alma torna-se uma laringe. Eles gastam-se e desmoralizam-se.» (p. 18)
 «A sua estupidez real esconde-se sob uma ciência especial. Sabem do seu ofício mas ignoram tudo o que o não seja.» (p. 19)
«Procurar o prazer não será encontrar o tédio? A gente de sociedade estafou cedo a sua natureza.» (p. 21)
«O prazer é como certas substâncias medicamentosas: para obter constantemente os mesmos efeitos é preciso dobrar as doses, e a morte ou o embrutecimento estão encerrados na última.» (p. 21)
«Aí, à força de o perder, é-se ávaro do tempo.» (p. 22)
«Esta vida vazia, esta expectativa contínua dum prazer que não chega nunca, este aborrecimento permanente, esta inanidade de espírito, de coração e de cérebro, e esta lassidão da grande sociedade parisiense reproduzem-se sobre as feições e confeccionam esses rostos de cartão, essas rugas precoces, essa fisionomia dos ricos onde a impotência se contorce, onde se reflecte o ouro, e donde a inteligência desertou.» (p. 22)
«Todos estão identicamente cariados até aos ossos por cálculo, por depravação, por um brutal desejo de vencer, e, sondando-os bem, encontraríamos em todos uma pedra no coração.» (p. 31)
«Mas não é o acaso um homem de génio?» (p. 44)
«O amor assusta-se ou alegra-se com tudo; para ele tudo tem um sentido, tudo lhe serve de presságio, venturoso ou funesto.» (p. 53)
«O amor verdadeiro reina sobretudo pela memória.» (p. 67)
«A vida é uma singular comédia.» (p. 72)

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