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Nascido na cave da Pembroke Books, uma livraria da Boston dos anos 60, Firmin aprendeu a ler devorando as páginas de um livro. Mas uma ratazana culta é uma ratazana solitária. Marginalizado pela família, procura a amizade do seu herói, o livreiro, e de um escritor fracassado.

À medida que Firmin desenvolve uma fome insaciável pelos livros, a sua emoção e os seus medos tornam-se humanos. É uma alma delicada presa num corpo de ratazana e essa é a sua tragédia.

Num estilo ora sarcástico ora enternecedor, Firmin é uma história sobre a condição humana em que a paixão pela literatura, a solidão e a amizade, a imaginação e a realidade, fazem parte de um mundo que acarinhava os seus cinemas de reprise, os seus personagens únicos e a glória amarelada das suas livrarias.

Firmin é divertido e trágico. Como todos nós.


Autor: Sam Savage
Editor: Editorial Planeta (2014)*
Género: Romance
Páginas: 208
Original: Firmin: Adventures of a Metropolitan Lowlife (2006) [Goodreads] [wook]
*Edição especial



opinião
(5 em 5)
My rating: 5 of 5 stars
Todos nós, que gostamos de ler, sabemos bem o respeito que este objecto, o livro, inspira. Também o sabe o pequeno Firmin, uma ratazana que vive numa livraria de livros em segunda mão. Nos seus primeiros tempos de vida Firmin recorre aos livros como alimento físico mas, mais tarde, quando aprende a ler, estes servem-lhe também de alimento intelectual, escapatória, fonte de conhecimento, consolo e até companhia.

No entanto, esta genialidade de Firmin é apenas partilhada com o leitor; a sua paixão pelos livros e pelo conhecimento afasta-o cada vez mais dos da sua espécie, sem, no entanto, lhe permitir que se aproxime realmente dos da nossa. Assim, Firmin condena-se a uma vida de solidão, filosofando, fantasiando, discutindo, interpretando e contemplando apenas para ele próprio.

Pensamentos cheios de substância destinados ao vazio. Esperanças e desejos que nunca passarão disso mesmo. Sonhos que, de tão impossíveis, se tornam patéticos…e tão tristes.

Firmin passa pela vida sem que alguém o veja pelo que é, incapacitado de comunicar com quem quer que seja que o compreenda, preso num corpo que ele próprio repudia. Ainda assim, esta singular ratazana não se cansa de sonhar e romantizar a sua existência, mantendo mente e coração abertos, sempre à espera de poder amar, estimar.

Firmin, o livro, é uma belíssima alegoria, fonte de profunda contemplação.


«E em África quando há fomes as crianças comem terra. Quando se tem fome, come-se o que há. O simples acto de mastigar e engolir seja o que for pode não alimentar o corpo, mas alimenta os sonhos. E os sonhos com comida são como os outros sonhos - pode-se viver deles até morrer.» (p. 27)
 «(...) as intermináveis penas que parecem acompanhar sempre o amor.» (p. 30)
«(...) o conceito de independência não é suficientemente rico, suficientemente profundo para descrever a minha fome. Eu chamar-lhe-ia antes amor. Coevo, talvez, pervertido, até, certamente não correspondido, mas apesar de tudo amor.» (p. 30)
«(...) cada livro tem o seu sabor - doce, amargo, agridoce, rançoso, salgado, picante.»  (p. 32)
«Escavavam tesouros com as mãos, às vezes com os braços enterrados até aos sovacos, e quando extraíam uma pepita literária de um monte de escória ficavam mais felizes do que se tivessem apenas pedido e comprado um livro. Nessa medida, fazer compras na Pembroke era como ler: nunca sabíamos o que íamos encontrar na página - ou prateleira, ou pilha, ou caixa - e isso contribuía para o prazer da leitura.» (p. 39) 
«Se uma educação literária serve para alguma coisa, é para nos fornecer um sentido de fatalidade»  (p. 51)
«Passei pela vida deixando atrás de mim um traço viscoso de medo, como os caracóis. Quando morrer mesmo será um anticlímax.»  (p. 52)
«(...) obedecem sempre a um padrão qualquer. As vidas nas histórias têm uma direcção e um sentido. Até vidas estúpidas e insignificantes, (...) adquirem, ao serem incluídas numa história, pelo menos a dignidade e o estatuto de Vida Estúpida e Insignificante, a consolação de serem consideradas exemplos. Na vida real nem isso se consegue.» (p. 54)
«Deixei os livros entrar nos meus sonhos e por vezes sonhei que eu é que estava nos livros.» (p. 56)
«(...) por mais pequenos que sejamos, a nossa loucura pode ser tão grande como a de qualquer outra pessoa.» (p. 56)
 «Eu viajava através dos meus livros» (p. 67)
«(...) os livros sabem ao cheiro do café» (p. 69)
«O amor não correspondido é mau, mas o amor impossível de ser correspondido dá cabo de nós.» (p. 82)
«A vida é curta mas mesmo assim é possível aprender umas coisas antes de irmos desta para melhor. Uma das coisas que observei é que os extremos tocam-se. o grande amor transforma-se em grande ódio, a tranquila paz transforma-se na ruidosa guerra, o tédio profundo transforma-se em grande agitação.» (p. 105)
«a diferença entre assumir uma máscara, que é sempre uma oportunidade de liberdade, e ser obrigado a usar uma é a diferença entre refúgio e prisão.» (p. 164)
«Toda a minha vida carreguei aos ombros o peso incapacitante da minha monstruosa imaginação.» (p. 172) 
«(...) quando uma pessoa não tem vontade de viver a vida outra vez é porque a desperdiçou.» (p. 203) 


✏ Sam Savage nasceu na Carolina do Sul mas vive actualmente no Wisconsin, em Madison. Depois de se formar em Yale, Savage deu aulas e trabalhou como mecânico de bicicletas, carpinteiro, pescador comercial e em impressão tipográfica. Em Portugal estão também editados 'As Recordações de Edna' e 'O Grito da Preguiça'. 



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