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0 A Balada de Adam Henry + Opinião


Trata-se de um romance que tem como personagem central Fiona Maye, uma juíza proeminente do Supremo Tribunal, que julga casos do Tribunal de Família. É bem sucedida profissionalmente, mas nem tudo lhe corre pelo melhor. Ao remorso latente por nunca ter tido filhos, junta-se a crise num casamento que dura há trinta anos.

Ao mesmo tempo que tem de enfrentar um casamento onde a relação com o marido está a desmoronar-se, é chamada a julgar um caso urgente. Por razões religiosas, um bonito rapaz de dezassete anos, Adam, recusa o tratamento médico. Sendo Testemunhas de Jeová, tanto ele como os familiares, rejeitam a transfusão de sangue que poderia salvar-lhe a vida. Deverá o tribunal secular sobrepor-se à fé sinceramente vivida? Enquanto procura tomar uma decisão, Fiona visita Adam no hospital. Esse encontro tem consequências para ambos, agitando sentimentos que estavam enterrados nela e despertando novas emoções nele.

Trata-se de um romance de elevada sensibilidade, em que McEwan prova, mais uma vez, a sua mestria em escrever sobre a natureza humana e sobre temas de grande actualidade que motivam a reflexão.


Autor: Ian McEwan 
Editor: Gradiva (Março, 2015)
Género: Romance
Páginas: 192
Original: The Children Act (2014) [Goodreads] [wook]


«Although thrillingly close to the child within us, McEwan nonetheless writes for, and about, the grown-ups. In a climate that breeds juvenile cynicism, we more than ever need his adult art.»
- Boyd Tonkin, The Independent

« The novelist has never been as nakedly polemical as he is here»
- Deborah Friedell, The New York Times

opinião
   (3 em 5)

Fiona Maye, Juíza do Supremo Tribunal, está familiarizada com o pior do casamento: o seu término. Acusações, ganância, perversidade, ressentimento. E agora, que o marido ameaça colocar em risco uma relação de 35 anos em perseguição de um caso extraconjugal revitalizante, pode muito bem ser a vez do seu casamento chegar ao fim.

Enquanto vive num «misto de mágoa e de indignação. Ou de nostalgia e fúria.» em que «queria que ele voltasse e nunca mais o queria ver», Fiona é chamada a julgar um caso urgente; o de um menor que recusa, por convicção religiosa, a transfusão sanguínea que contrabalançará o estado anémico provocado pelo único tratamento que lhe poderá salvar a vida.

Após ouvir os argumentos dos pais do jovem, do Hospital e do próprio Adam, Fiona decide que este precisa «ser protegido da sua religião e de si próprio», dando luz verde ao Hospital para avançar com o tratamento e, consequentemente, com a transfusão de sangue.

Graças à competência, compreensão e falta de preconceito que apresenta perante cada um dos seus casos jurídicos, Fiona foi conquistando a minha empatia. Além deste, Ian McEwan desfia outros dilemas morais também associados a princípios religiosos que condicionam vários aspetos da vida de devotos - Judeus Ortodoxos, Muçulmanos ou Católicos.

A resolução do caso de Adam pareceu-me, no entanto, demasiado «fácil» no sentido em que, depois de tomada a decisão de Fiona, os pais suspiram de alívio e o jovem Adam muda completamente a sua mentalidade bem como a forma como vê a religião «dos pais», como se tudo não tivesse passado de uma brincadeira… No meu ponto de vista, McEwan falha completamente em desenvolver a complexidade do fervor da crença destas pessoas, dando às suas convicções, que aparentemente vão ao ponto de colocar a vida do próprio filho em risco, um tom banal.

Incomodou-me que um jovem que nos foi apresentado como maduro para a idade, extremamente coerente, plausível e inteligente se transforme subitamente no típico adolescente revoltado, agindo por ignorante compulsão, bastante imaturo e até ingénuo. Acredito que McEwan estivesse a tentar mostrar como a religião moldava os comportamentos de Adam, roubando-lhe liberdade de acção e expressão mas não gostei de ver um adolescente sensato mudar para um jovem adulto (pois passa para a maioridade) tão despropositado e de ações insipientes. Tampouco gostei de vê-lo passar a chamar a religião pela qual estava disposto a sacrificar a vida como a «religião do pai»… Estas alterações, e falta de coerência em Adam, desacreditam, a meus olhos, o objetivo do livro.

Fiona age sensatamente e de forma muito abrangente, tentando incluir em cada caso as várias influências externas - religiosas ou sociais. Pareceu-me, em contrapartida, que o ponto de vista dos pais de Adam não foi suficientemente explorado ou consolidado - além disso, concluir depois que agiam todos pelos motivos errados: os pais para se descartarem de responsabilidade perante a congregação e Deus e Adam sonhando tornar-se um mártir, tira substância ao livro.


Adoraria ter lido este livro se sentisse que tanto os pais como o filho estavam 100% convictos na sua fé já que, depois, teria sido muito interessante estudar a influência que Fiona acabou por ter na vida de Adam. Da forma como foi desenvolvido, é demasiado tendencioso e isso age contra a verosimilhança do livro.

Frases Preferidas
«Ele procura-a, a desejar o que toda a gente desejava, e o que apenas as pessoas de espírito livre, e não o sobrenatural podiam dar: significado.» (p. 187)

«Uma pura sorte, virmos ao mundo com as partes devidamente formadas e no lugar certo, nascermos de pais carinhosos, e não cruéis, ou, por acidente geográfico ou social, escaparmos à guerra ou à miséria. E, por conseguinte, acharmos facílimo ser virtuosos.» 34

«Ser alvo da compaixão geral era também uma forma de morte social.» 57




☞ IAN MCEWAN escreveu dois livros de contos, "Primeiro Amor, Últimos Ritos" (Somerset Maugham Award 1976) e "Entre os Lençóis", e dez romances, "O Jardim de Cimento" (adaptado ao cinema em 1993), "A Criança no Tempo" (vencedor do Whitbread Award 1987), "O Inocente" (adaptado ao cinema em 1993), "Estranha Sedução" (adaptado ao cinema em 1990), "Cães Pretos", "O Sonhador", "O Fardo do Amor" (adaptado ao cinema em 2004), "Amesterdão" (vencedor do Booker Prize 1998), "Expiação" (prémios US National Book Critics Circle 2002 e WH Smith 2002 para o melhor livro de ficção) e "Sábado", todos publicados em Portugal pela Gradiva. Escreveu também vários argumentos para cinema, entre os quais "The Imitation Game", "The Ploughman’s Lunch", "Sour Sweet" e "The Good Son".

 Livros de Ian McEwan:
Primeiro Amor, Últimos Ritos (1988);
O Inocente (1990);
Cães Pretos (1993);
O Fardo do Amor (1997);
Amesterdão (1998);
Expiação (2002);
A Criança no Tempo (2002);
Por Ti (2005);
Sábado (2005);
Solar (2010); 
O Sonhador (2012);
Mel (2012);
A Balada de Adam Henry (2015);


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