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0 A Queda dum Anjo + Opinião

 Calisto Elói é um erudito fidalgo transmontano, austero e conservador, ligado ao passado, às lições da História, às antigas noções de moralidade e bondade e mergulhado constantemente nos seus clássicos de História, Cultura, Música, Vinhos, Filosofia. 
  Eleito deputado do Minho, Calisto é enviado para Lisboa como representante da região. Defensor acérrimo das suas convicções sobre a moral, a verdade e a justiça, a sua cruzada contra a depravação e a corrupção acaba esquecida, quando ele próprio se deixa corromper pelo luxo e pelo prazer que imperam na capital, tomando como amante uma prima afastada, Ifigénia, e transitando da oposição miguelista para o partido liberal no governo. 
  Ironicamente, Teodora, esposa de Calisto, acaba por imitá-lo na devassidão: desprezada pelo marido, une-se a um primo interesseiro e sucumbe aos vícios da modernidade.

Autor: Camilo Castelo Branco
EditorCivilização Editora (Novembro, 2012)
Género: Clássico
Páginas: 192


opinião
My rating: 5 of 5 stars

O fidalgo Calisto Elói, por brilhar entre ignorantes, é encaminhado para Lisboa com o objectivo de representar os seus eleitores. Para trás deixa a propriedade rural, a esposa trabalhadora e, pouco a pouco, todos os seus escrúpulos...

Chegado à corrupta capital, o contraste é gritante: Calisto está fora de moda...em vários sentidos! Sem querer reconhecer que o mundo evoluiu, insiste para que se façam aplicar leis e regras desactualizadas; escandaliza-se com pouco, critica tudo e está determinado em levar à letra os seus clássicos de literatura, apesar destes darem provas, uma e outra vez, de não lhe trazer nada de bom. Muito púdico, Calisto confronta os seus oponentes políticos com inteligência e distinção, enchendo-se de moralidades para lhes tecer severas críticas. Contudo, na sua ânsia por converter...Calisto acaba convertido.

As traições sucedem-se umas às outras e em vários níveis (ideais, valores, crenças, os estimados clássicos, os amigos e até a esposa) quando o coração de Calisto se sobrepõe à razão que sempre o orientou. Poderíamos afirmar que, com isto, o pobre Calisto se trai a si mesmo mas temos que reconhecer que, embora agindo injusta e cegamente, Calisto apenas queria amar e ser amado. Lamentavelmente, esta busca pela felicidade tornou-o tão velhaco e escorregadio como os seus anteriores alvos de censura.

Nesta crítica à sociedade e muito provavelmente em justificativa às suas próprias decisões e comportamentos, Camilo Castelo Branco serviu-se de um vocabulário rico, carregado de humor e injectado de sarcasmo que, só por si, já vale a leitura. A história não abunda em originalidade mas a competência do autor dá tamanha graça e vida às suas personagens que o rumo da narrativa acaba por se tornar secundário.

Frases Preferidas
'Que a pobreza é o estímulo das maiores façanhas da inteligência' (p. 27)
'Ora, agora, que há muito quem bebe o suor do povo, isso há; e aqueles que deviam ser bem pagos são os que menos comem na Fazenda Nacional.' (p. 29) 
'Com estas zombarias é que em Portugal os sábios são premiados... Se Calisto fosse um parvo, o Governo dava-lhe um subsídio (...)' (p. 39)
'a imaginação era curral do conselho, onde, por não ter portas, todo o animal tinha entrada.' (p. 65)
'Duas enfermidades há aí cujos sintomas não descobrem as pessoas inexpertas: uma é o amor, a outra é a ténia. Os sintomas do amor, em muitos indivíduos enfermos, confundem-se com os sintomas do idiotismo.' (p. 86) 
'As melhores coisas, muito pensadas antes de possuídas, desmerecem quando se possuem.' (p, 177)

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