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1 A Casa da Aranha + Opinião

  Verdadeiro thriller político, com a medina de Fez em pano do fundo e os tempos explosivos do movimento nacionalista marroquino. 
  Embora todos os romances de Paul Bowles espelhem o encontro e o conflito entre civilizações, neste, muito menos subjetivo, a aguda clivagem entre a cultura árabe e a do colonizador francês é profundamente explorada, com grande detalhe e intensidade. A forte tenção política e social que enquadra a intriga - protagonizada por um americano comunista, um rapazinho analfabeto e uma atraente mulher ocidental -, o ambiente de conspiração nacionalista e a infinidade de matizes, que restituem a milenar cidade de Fez à sua complexidade e vida, tornam A Casa da Aranha num marco na obra de Paul Bowles.


Autor: Paul Bowles
Editor: Quetzal (Julho, 2014)
Género: Thriller
Páginas: 504
Original: The Spider's House (1995) [Goodreads]
      


opinião
My rating: 3 of 5 stars
★   
Neste livro, Paul Bowles leva-nos até Marrocos, no início dos anos 50; tempo de conflito entre árabes e franceses. A vida adquire um tom anárquico, os homens abandonaram as suas famílias, forçados pela pobreza, em busca de trabalho em cidades vizinhas ou alistaram-se no exército onde há a garantia de que terão o que comer.

Tensão, raiva e uma boa dose de preconceito de ambos os lados levam ao desencadear de acções violentas que espalham o terror...e acabam por juntar três indivíduos cuja aproximação, num cenário diferente, seria bastante improvável - uma progressista ingénua nas suas convicções, um ex-comunista americano que gostaria simplesmente que tudo voltasse ao que era antes e um adolescente analfabeto mas bastante perspicaz que se deixa guiar fervorosamente pela religião.

Não utilizei em vão o verbo levar no primeiro parágrafo. Com as suas fantásticas descrições Paul Bowles desperta os nossos sentidos e parece, efectivamente, transportar-nos para os cenários de que nos fala. Ficam-nos imagens fortes que, acompanhadas de uma abordagem competente da cultura local, a nível religioso e político, e perdendo tempo fundamentando mentalidades e costumes, transformam este livro numa leitura muito interessante.

A narrativa aproxima-nos a dois lados e culturas bastante diferentes. Muitos autores mostram um lado e tentam, muitas vezes até sem sucesso, explicar o outro, alheando-se do mesmo e tornando óbvio que há para eles um lado certo e um lado errado. Bowles mostra-nos os dois lados, e até mais, de forma equivalente, fundamentando-os. Infelizmente, fá-lo também através das suas personagens, criticando-as, destacando os seus traços negativos, e cortando assim qualquer laço de afinidade que pudéssemos desenvolver com elas.

O ritmo é ligeiramente mais lento do que o desejável e acabei por gostar mais do exotismo do livro e da informação útil que contém do que propriamente do enredo ficcional. Incomodou-me a mudança abrupta de pontos de vista; acabamos por voltar a entrar no compasso do livro mas não sem passar por momentos de alguma confusão.

O jovem marroquino Amar acredita na constante intervenção de Alá; tudo o que acontece está fadado a acontecer e um homem não tem o direito de lamentar o que é inevitável. Da mesma forma, o autor cruza a vida destas três personagens com algum fatalismo, como se estivesse destinado a acontecer.






✏ Paul Bowles (1910-1999) Paul Bowles nasceu em Nova Iorque em 1910 e morreu na última quinta-feira, 18 de Novembro, em Tânger, onde vivia há mais de 50 anos. Jovem ainda, publicou alguns poemas em revistas. Como muitos da sua geração, embarcou para a Europa, à procura de novos ares. Paris era uma festa, e aí conheceu Gertrud Stein, que o convenceu de que não tinha jeito para a poesia e o aconselhou a viajar a Tânger, onde passou um Verão, tocando Mozart. A música era a outra paixão. Casou-se em 1937 com Jane Auer, depois Bowles, também escritora ("Duas Senhoras bem Comportadas"). Eram grandes viajantes e acabaram por conhecer meio mundo das letras e das artes. 

✏ Além de 'A Casa da Aranha', em Portugal estão editados 'Viagens', 'Poemas', 'Por Cima do Mundo', 'Memórias de Um Nómada', 'Deixa a Chuva Cair', 'Muito Longe de Casa' e 'O Céu Que Nos Protege'. 





Um comentário:

  1. Olá!

    Tenho muito curiosidade com este livro. Embora não goste muito de histórias com um ritmo lento, vou tentar ler.

    Boas leituras.

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