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0 O Mundo Ardente + Opinião

  Sistematicamente menosprezada pelo meio intelectual nova-iorquino, Harriet decide levar a cabo uma experiência extrema a que chama Máscaras. Escondida por detrás de três identidades masculinas - três artistas que assumem a autoria do seu trabalho e o expõem -, ela tenciona revelar os preconceitos que imperam no mundo das artes. Pretende também desvendar os mecanismos da perceção humana e provar que ideias sobre sexo, raça e celebridade influenciam a maneira como olhamos para uma obra de arte. Mas a experiência vai longe de mais e o envolvimento da artista com a última das suas «máscaras» transforma-se num perigoso jogo psicológico de sedução e violência.
  Anos após a morte de Harriet, um professor universitário decide reconstituir os seus passos e reunir numa coletânea fragmentos dos diários dela, recensões críticas e testemunhos dos filhos, companheiro e amigos. Desta multiplicidade de vozes, que tantas vezes se contradizem entre si, começa a emergir a verdadeira história de Harriet Burden, uma mulher enigmática, maior do que a vida.
  O Mundo Ardente é um puzzle complexo e rigoroso, irónico e lúdico, que o leitor vai montando de capítulo em capítulo, decifrando pistas e mistérios. Uma obra visceral, comovente e provocadora.

Editor: Dom Quixote (Maio, 2014)
Género: Romance
Páginas: 464
Original: The Blazing World (2014) [Goodreads] [Wook]

   

opinião

My rating: 4 of 5 stars

Ler 'O Mundo Ardente' é uma experiência enriquecedora, em vários sentidos, …mas nada fácil. A mim, pelo menos, roubou algum tempo e deu-me certo trabalho em termos de pesquisa complementar, mas não duvido que tenha valido a pena!

Muito resumidamente, um professor universitário resolve compilar testemunhos sobre a artista plástica Harriet Burden após ter conhecimento da experiência 'Máscaras', a que ela se dedicou. Nesta, três artistas do sexo masculino serviriam de fachada para Harriet, assumindo e expondo o trabalho dela como se fosse seu. O objectivo seria testemunhar a influência que a identidade do artista tem sobre a forma como o seu trabalho é recebido/percepcionado junto do público e dos críticos - a relevância do estereótipo na sociedade.

O meu interesse na história foi primeiramente cativado pela forma fragmentada que a autora escolheu para a desenvolver. Harriet vai sendo apresentada ao leitor através dos seus diários pessoais e através de testemunhos de familiares, amigos ou conhecidos da artista… Esta sucessão de pontos de vista sobre uma mesma pessoa ajuda-nos a reconstituir o carácter de Harriet pouco a pouco; os seus receios e objectivos. Harriet tem tantas dimensões quantas pessoas se dedicam a interpretá-la!

A autora, Siri Husvedt, criou um inteligente jogo de perspectivas entre as suas personagens e depois estendeu-o formidavelmente a nós, leitores. Enquanto se complementam e contradizem, as personagens demonstram os seus diferentes entendimentos em relação a Harriet, em relação ao seu trabalho, à forma como vivia a sua vida e em relação umas às outras … e nós, sem sermos manobrados ou especificamente direccionados pela autora, construímos os nossos próprios pareceres sobre os mesmos tópicos/personagens.

Harriet é uma figura intensa, artística, já sem a insegurança da juventude mas perturbada pelo passado, curiosa por natureza, intelectual por excelência. Além do Feminismo, Harriet estende o seu interesse a várias ciências e artes - e é aqui, graças especialmente à abundância de referências, que Husdvet nos dificulta a vida.

Apesar de Harriet ser uma personagem muito interessante, não posso dizer que me tenha identificado ou apreciado a 100% os assuntos sobre os quais se debruça… afinal, trata-se de uma artista a pender para o excêntrico e concordo, em parte, com o que um dos personagens faz questão de notar: se não tivesse tanto dinheiro, Harriet não se preocuparia com determinado tipo de 'problemas'. Felizmente, a parte emocional e psicológica, a forma brilhante como o livro foi construído e o facto de haverem muitas outras personagens com pontos de interesse, chegam e sobram para me levar a ignorar completamente as partes que apreciei menos.

Pelo facto de termos apenas acesso a opiniões e narração de situações por parte de terceiros, gostei especialmente que Siri Husvedt me tenha dado a oportunidade de criar uma Harriet que é só minha.


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Outros livros de Siri Husvedt:
ELEGIA PARA UM AMERICANOVERÃO SEM HOMENSAquilo que Eu Amava [Reedição]

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