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0 Coração de Cão + Opinião

  Um eminente cientista, especializado em rejuvenescimento humano, enceta uma experiência com recurso a um cão abandonado das ruas de Moscovo. Transplanta-lhe a hipófise e os testículos de um indivíduo que acaba de morrer e o resultado é inesperado: o animal transforma-se num pequeno homem rude, desagradável e bêbado.
  A explicação é simples: o doador era um alcoólico sem escrúpulos. E eis que o professor é perseguido por todos os comités e comissões estatais e proletárias de todo o género, deslumbradas com o cão transformado em homem. E ainda por cima, homem do partido! Como em toda a sua escrita, Bulgakov faz sublinhar neste livro o irracional, o escárnio e a sátira, no melhor retrato daquilo que foi o «homem novo» soviético.

Autor: Mikhail Bulgakov [site oficial] [facebook]
Editor:Aletheia (Março, 2014)
Género:Fantástico
Páginas:150
Original: Heart of a Dog (1925) [Goodreads] [WOOK]
   


Opinião...


My rating: 5 of 5 stars

Em poucas cenas e através de um enredo aparentemente desatinado, Bulgakov criou em 'Coração de Cão' uma sátira política e social mordaz que explora possibilidades incríveis sobre a psique humana, a aplicação da engenharia genética no melhoramento da espécie e no seu rejuvenescimento enquanto registava as mudanças à sua volta, na Rússia dos anos 20.



Partindo da teoria que a hipófise é uma câmara fechada que encerra o esboço da personalidade humana, um cientista resolve transplantar para um cão de rua a glândula e os testículos de um homem. Mas brincar com a natureza costuma ter o seu preço e, contrariando o desfecho esperado, o cão acaba por resistir à cirurgia tornando-se Charikov (nota: os nomes foram alterados na edição portuguesa) um cidadão russo politicamente ativo e opinativo - um híbrido das duas espécies que parece reter o pior de cada uma delas. Sem ponta de civilidade e sem filtro moral Charikov é um monstro de caráter odioso e instintos animais que provoca cada vez mais problemas, cada vez mais graves, até não restar outra solução senão a reversão da operação. 
No entanto, este assombro problemático foi 'fabricado' pelo homem, não sendo apenas resultado da macabra cirurgia mas também da sociedade e dos seus próprios instintos, tanto animais como humanos. À medida que vamos avançando na história cada vez se torna mais evidente que foi corrompido um dos carateres mais puros da natureza; logo ao início, quando conhecemos o cão pela primeira vez, somos de imediato apresentados à bestialidade humana onde, curiosamente, o animal irracional dá mostras de maior racionalidade que o animal dito racional e - Charikov parecia mais humano quando era cão!

Embora Charikov esteja no centro de tudo, 'Coração de Cão' é mais interessante pelo enfoque que dá a muitos outros aspetos através dos trágicos, mas cómicos, acontecimentos da vida deste personagem, tais como a falta de cultura, moral, civismo, compaixão e as consequências destas carências; a irresponsabilidade, negligência, burocracia e ignorância agressiva que condicionam a sociedade. Bulgakov deixa-nos a pensar sobre os critérios que definem realmente o ser humano e a imprevisibilidade do seu comportamento envolvendo a narrativa numa atmosfera pobre e tétrica que reflete a Rússia conflituosa de Estaline, quando o comunismo perdia terreno e as classes sociais se debatiam constantemente entre si. 

Os meus livros preferidos tendem a ser aqueles mais alucinados, com um sentido de humor muito próprio, envolto numa melancolia penetrante. Livros pequenos mas carregados de significado, onde o fantástico é manobrado com um realismo assustador, enraizado no quotidiano; livros que exigem interpretação, deixando-me a pensar neles durante vários dias depois de os terminar, a desenterrar novos pontos de interesse conforme o ângulo que decida olhar para eles. 'Coração de Cão' é um desses livros, com a adição de que, quando colocado em contexto histórico, tem um impacto extraordinário!


Sobre o autor...
Romancista e dramaturgo, Mikhaíl Bulgákov nasceu em Kíev em 1891, filho de um professor da Escola Superior Eclesiástica, e morreu em Moscovo em 1940. Estudou na Faculdade de Medicina da Universidade de Kíev, tendo-se licenciado em 1916; durante a Primeira Guerra Mundial trabalhou nos hospitais militares e num hospital de uma zona rural. Das suas obras destacam-se A Guarda Branca (1924), a peça Os Dias dos Turbin (1926), O Mestre e Margarita, publicado postumamente em 1966, e O Romance Teatral.

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