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0 Tenho o Direito de Me Destruir + Opinião

  Num tempo em que a eutanásia e a morte assistida estão na ordem do dia, o narrador anónimo deste romance ajuda pessoas a morrer. Mas não porque se encontrem doentes, simplesmente porque se sentem fartas da vida. 
  Bastam-lhe dois ou três clientes por ano para sobreviver; mas nem sempre se torna fácil encontrá-los e, por isso, é preciso ler muito, viajar, saber de pintura, fazer pesquisa, seguir alguma pista. («As conversas fluirão mais facilmente se eu souber quais as bandas, pintores e escritores que preferem.»)
   Foi assim, de resto, que descobriu a bela e tentadora Se-yeon, que partiu o coração aos dois irmãos que se apaixonaram por ela; e também Mimi, a artista que nunca permitia que a filmassem porque tinha medo de se ver a si mesma. E quem sabe se se tornará sua cliente a rapariga de Hong Kong que conheceu num museu, em Viena, e parecia fugir de um passado terrível?
  Tomando a paisagem urbana e o ritmo louco de Seul como espelho da vida contemporânea em todo o mundo – e combinando a tensão emocional de Kundera com a angústia existencial de Bret Easton Ellis – Tenho o Direito de Me Destruir, traduzido em mais de dez línguas, inscreve a moderna literatura sul-coreana na tradição internacional e institui Kim Young-ha como a voz mais importante da sua geração.

Autor: Kim Young-Ha [site oficial] [facebook]
Editor: Teorema (Fevereiro, 2014)
Género: Romance
Páginas: 136
Original: I Have the Right to Destroy Myself [Goodreads] [WOOK]

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Opinião

My rating: 3 of 5 stars

'Só há duas maneiras de ser um deus: através da criação ou do assassínio.'


Divido Tenho o Direito de Me Destruir em dois elementos base, o narrador e a história que ele partilha. Adoro o narrador, mas já não posso dizer o mesmo da história…
Adoro o narrador porque este é perspicazmente perverso, misterioso, impiedoso, lúgubre e trágico…ou talvez, e infelizmente (assustadoramente?!) realista e fatual... É também interessante que Kim Young-ha tenha tornado a personagem anónima, sobre a qual quase nada sabemos, na mais cativante do livro.

'Só quero identificar os desejos mórbidos, aprisionados bem lá no fundo do inconsciente. Depois de libertado, este desejo começa a crescer.'


A atividade profissional deste narrador é, no mínimo, bizarra. Seguindo pistas e analisando 'sintomas', dedica-se a procurar ativamente na população pessoas dispostas a terminar as suas vidas; indivíduos excêntricos e melancólicos, de mal com a vida, que prolongam inutilmente vidas complicadas, fartos de insistir numa existência que há muito tempo não lhes dá prazer.
'A crueldade dá um secreto prazer.'


É assim que conhece os irmãos K e C, a caprichosa mulher por quem ambos se apaixonam e a extravagante artista Mimi que acaba por cruzar o caminho de um dos irmãos. Infelizmente, é a atribulada história destas personagens que não me cativa, especialmente quando comparada com o poder hipnótico do narrador. 
Sem invocar questões morais ou problemas de consciência, para o narrador a morte, lírica e romanesca, é algo por que ansiar.

'A morte tornou-se pornográfica (…).'


As suas excelentes descrições são quase tão graficamente violentas como as obras de arte que invoca, levando-nos a palmilhar percursos de raciocínio taciturnos mas cativantes
'Será que a vida também é assim? A mão que recebo está determinada desde o início. Provavelmente, as cartas que recebo na vida são inúteis - qualquer coisa como três kkeut. Não há hipótese nenhuma de três kkeut poderem ganhar a dois ases. Só há duas possibilidades: ou tenho tanta sorte com o meu bluff que os outros passam, apreensivos, mesmo com boas mãos, ou os outros têm mãos piores, de um ou dois kkeut. Mas isso só me permitirá ganhar uma miséria. A minha única esperança é que a jogada acabe depressa e eu receba cartas novas.'

'Todas as pessoas que lerem isto encontrar-se-ão comigo a certa altura (…). Aproximar-me-ei delas sem avisar e perguntarei: «Percorreram um caminho tão longo, mas nada mudou, pois não?» Ou: «Não gostariam de descansar?» Quando isso acontecer, dêem-me a mão e sigam-me. Não olhem para trás, mesmo que não tenham coragem de ir até ao fim. Continuem a caminhar, mesmo que seja duro e fatigante.'


Gostei imenso da forma como esta esquiva personagem estuda o ser humano, partilhando momentos refletivos de grande interesse…e penso que isso faz o livro valer bem a pena. 
'Muitas vezes, o medo traveste-se de ódio. Se queres aprender a andar de bicicleta, tens de voltar o guiador para o lado em que vais a cair e pedalar com força.'


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