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0 Almas Mortas + Opinião

  Se Púchkin foi o grande poeta da literatura russa moderna, Nikolai Gógol foi o seu grande prosador. E Almas Mortas o seu grande livro. Este ucraniano, morto de doença nervosa e desespero espiritual aos 42 anos, imaginou uma grande obra épica que não só retratasse a Rússia como lhe delineasse o futuro. Imaginou essa obra em três "tempos", à maneira de Divina Comédia, por esta ordem: o inferno, o purgatório, o paraíso. Pelas vicissitudes da sua vida e do seu percurso espiritual, Gógol ficou-se pelo inferno, ou seja pelo I Tomo de Almas Mortas, que aqui apresentamos traduzido do original russo. Conta a chegada do vigarista Tchítchikov a uma cidade provinciana da Rússia esclavagista com o intuito de comprar aos senhores da terra locais, para fins inconfessáveis, "almas mortas" (servos da gleba já falecidos mas que ainda constavam dos registos de recenseamento como vivos). Estilo mordaz mas subtil, uma veia satírica e uma escrita moderna ainda hoje inimitáveis, aprofundamento dos caracteres até ao osso - é assim Almas Mortas.
  Gógol ficou-se pelo primeiro tomo porque queimou por duas vezes os manuscritos do segundo. Abençoado auto-de-fé: no que restou do segundo tomo (salvaram-se do fogo cinco capítulos, cuja tradução está também incluída nesta edição), o seu humor corrosivo já só aflora de vez em quando, a preocupação religiosa do autor em regenerar as almas, o seu afã em reanimar uma ordem social moribunda teriam deixado o resto de Almas Mortas a grande distância da parte genial publicada.

Autor: Nikolai Gogol
Editor: Assírio & Alvim (2002)
Género: Literatura Clássica
Páginas: 512
Original: Мёртвые души (1842)


Opinião...
Este é um daqueles trabalhos cuja qualidade de escrita vale, só por si, a leitura..!

Nikolai Gogol, um dos melhores escritores russos, revela-se aqui um génio da comédia recorrendo abusiva mas formidavelmente à hipérbole para nos trazer esta crítica anedótica e contemplativa. Em Dead Souls obtemos uma tríade de perfeição: situações trabalhadas de forma magistral, personagens descritas na perfeição e um palavreado muito rico.

A história é original na sua essência: Chichikov é novo na cidade e chega pronto para fazer negócio aproximando-se estrategicamente dos indivíduos mais influentes da povoação, cativando-os a todos com a sua graça e charme cinicamente ajustadas conforme o alvo e o propósito, aproveitando-se da sua credulidade, amabilidade e hospitalidade. Este seria o retrato de um trapaceiro como muitos outros, não fosse a bizarrice do bem comercializado: "almas"…É que o nosso Chichikov quer aumentar o seu estatuto social através da compra de servos já falecidos mas que ainda possuam estatuto de vivos no último censo…

Assim, Gogol tece, por entre situações hilariantes protagonizadas por personagens ora melancólicas ora extravagantes, mas todas elas bastante melodramáticas e definitivamente tresloucadas, uma sátira bastante intelectual, irónica e complexa sobre o sistema social russo, um materialismo elevado a um nível em que as próprias pessoas são propriedades que se podem vender ou comprar…ou até, quem sabe, hipotecar.

O sentido crítico pode ser bastante forte mas Gogol não nos deixa enganar: a diferença no tom entre a descrição das personagens e a descrição da Rússia, como país, é bastante reveladora, patenteando um patriotismo fervoroso.

Pessoalmente adorei o contexto bizarro, a vivacidade das descrições, o fantástico sentido de humor que me levou a rir com vontade, alternado com passagens mais profundas que me levaram igualmente a reflectir. Além disso, gosto imenso de um narrador bem presente e este é, com certeza, um dos melhores!

Infelizmente, este é um trabalho não concluído já que era para ser uma trilogia mas chegou até nós apenas em duas partes, estando a segunda consideravelmente fragmentada uma vez que o autor pretendeu destruir a 2ª parte e fê-lo já próximo da sua morte. Ainda assim, tal como está, Dead Souls é uma obra sublime e deixa-nos apenas um certo desalento por permitir entrever o potencial fantástico de trabalhos posteriores.
«(…) for contemporary judgment does not recognize the fact that elevated and enthusiastic laughter is worthy of standing on the same plane with elevated lyrical emotion (…)»

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