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0 Os Cadernos de Pickwick + Opinião

Os Cadernos de Pickwick foram e são um clássico instantâneo, uma referência na comédia de situação, de linguagem e de personagem, cuja influência se percebe em obras de todos os tipos - não apenas nas estritamente humorísticas. É um livro inocente sobre a inocência, em que tanto o protagonista como o autor vão, a pouco e pouco, deixando de ser inocentes. O eterno Sr. Pickwick, que começa por ser um pateta pomposo e ridículo, é, no final do livro, um homem bondoso e puro - e, no entanto, temos a sensação que não foi ele quem mudou. AS personagens mudam pouco ou nada, ao longo do romance, mas o autor e o leitor mudam. O sarcasmo de Dickens, e o nosso, transforma-se em admiração, embora o Sr. Pickwick se mantenha igual - como os deuses. Como diz Chesterton, «Dickens não escreveu exactamente literatura, escreveu mitologia».
Prefácio, RICARDO ARAÚJO PEREIRA.

Autor: Charles Dickens
Editor: Tinta da China (2012)
Género: Humor
Páginas: 936
Original: The Posthumous Papers of the Pickwick Club (1836)



Opinião

Não há um meio-termo na minha opinião acerca de Os Cadernos de Pickwick - do início ao fim, o livro é um estrondoso primor. Tanto assim que estou profundamente convencida que cinco estrelas, apenas, não chegam para lhe fazer verdadeira justiça!

Dickens recorreu à sua habitual escrita tão elegante, tão rica e tão cheia de deliciosas segundas intenções para nos trabalhar uma narrativa brilhante, repleta de justificadas críticas à sociedade de então, diálogos geniais e uma caracterização de personagens magnífica.

É certo que nesta verdadeira ode à boa-disposição, tão precoce na carreira do escritor, não encontramos a maturidade imposta por exemplo em A Christmas Carol, carregado de moralismo num registo mágico e encantado, nem o seu semblante mais carregado e crítico como em A Tale of Two Cities…mas nenhum dos anteriores nos aquece a alma como estes Cadernos de Pickwick, com toda a sua hilaridade…

E a excelente tradução desta edição - tenho mesmo que dizer - é a rechonchuda cereja em cima do bolo!

Não vou sequer salientar os mínimos aspectos menos positivos - primeiro porque são absolutamente residuais e segundo porque, numa leitura que me deu tanto prazer, seria de uma mesquinhez perversa.

Vou certamente ter imensas saudades do benevolente e atafulhado-em-longanimidade Sr. Pickwick e do insofismável Samuel Weller…

Pelo seu tamanho aparatoso, este não é um livro que possa recomendar a toda a gente…mas para quem gosta de ler gosta de ler (e não é de todo uma qualquer personificação de Mr. Scrooge: não deixe de ler Os Cadernos de Pickwick!

«Deixemos o nosso velho amigo num desses momentos de felicidade plena, que somos sempre capazes de encontrar, se os procurarmos, para animar a nossa existência transitória neste mundo. Há sombras tenebrosas na terra, mas as suas luzes são mais fortes por contraste. Alguns, como as corujas ou os morcegos, têm melhores olhos para as trevas do que para a luz.»
~ Os Cadernos de Pickwick

«Todavia, nunca passa de moda o protesto contra as coisas sagradas que se mostra só da boca para fora, sem penetrar o coração; ou contra a confusão do cristianismo com toda a sorte de pessoas cuja religião, para citar Swift, só serve para se odiarem e não basta para se amarem uns aos outros.» 
~ Prefácio de Charles Dickens à edição de 1867


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