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Orgulho e Preconceito

My rating: 4 of 5 stars

Jane Austen não podia ter sido mais perspicaz na criação de uma narrativa que evidencia tão inteligentemente , e num falso tom ligeiro e bastante cómico, o cinismo e a hipocrisia da sociedade inglesa do século XIX.

Orgulho e Preconceito tem início com a chegada de Mr. Bingley à localidade. Este homem tão encantadoramente afável, de modos cavalheirescos e bem-parecido (e, claro, rico!) provoca um furor imenso entre as mães casamenteiras e as filhas casadoiras, que a nós muito nos diverte!

Na verdade, Mr. Bingley não chega à sua nova morada sozinho; vem acompanhado das irmãs e do amigo, Mr. Darcy. Este tal de Darcy há-de ser a criatura mais snobzinha que alguma vez colocou pé nas redondezas: arrogante, antipático, orgulhoso, desagradável, altivo e pretencioso, Mr. Darcy é o completo oposto do seu tão atencioso amigo, Mr. Bingley.

Mas tudo isto são elações de primeiro impacto…e a autora acaba por nos mostrar, em diversos sentidos, o quão enganados podemos ser pelas aparências.

Jane Austen constrói e familiariza-nos com as suas personagens principalmente através do diálogo, tornando-as genuínas e realistas aos nossos olhos. Isto torna a narrativa, por vezes, pobre em acção mas pejada de diálogos magníficos que tornam o livro caloroso e acolhedor, permitindo-nos observar a aplicação prática das diversas personalidades em contexto.

Esta obra marca bem a dependência da mulher relativamente ao matrimónio e como vidas inteiras parecem girar em torno de tal acontecimento, seja ele próprio ou alheio. A futilidade e o preconceito da época são ridicularizados, sendo muitas vezes colocados em evidência pelas próprias personagens que reúnem estas pobres características. Verificamos isso especialmente com Mr. Collins e Mrs. Bennet, ambos tacanhos, tolos, presunçosos e interesseiros, mesquinhos nos seus disparates.

Os diálogos estão marcados por observações mordazes e inteligentes que aprofundam o livro em teor. Quanto às descrições de cenário e guarda-roupa, para uma curiosa como eu, estas poderiam ser mais pormenorizadas, o que certamente acabaria por enriquecer ainda mais o interesse histórico da obra. Além disso, o livro fecha-se bastante em redor deste núcleo de personagens e acaba por falhar em nos fornecer um quadro geral da época. Nada disto é «defeito», já que o livro foi escrito no mesmo período histórico sobre o qual se debruça, não existindo talvez grande interesse na altura em estar em descrever o que era óbvio para todos.

Algumas cenas são um bocadinho insípidas e com pouca substância; e gostaria de ter assistido a maior arrebatamento passional por parte de Jane e Elizabeth, mas esta é com certeza uma leitura muito agradável e fluída, branda. Dificilmente encontraremos esta riqueza de escrita tão adornada e distinta em autores contemporâneos.

Além disso, não podemos alegar que Jane Austen não nos deu variedade ao rematar três enlaces tão distintos: um arrebatador amor à primeira vista; um amor que cresce em lume brando à medida que os intervenientes se vão conhecendo melhor; e uma relação estouvada e leviana, sem qualquer base de afecto.

Frases Preferidas:
«Poucas pessoas existem de quem realmente goste e ainda menos são as que me merecem conceito favorável.»
«(...) mesmo sem nos animar o propósito de proceder mal ou de prejudicar os outros, podemos praticar erros e provocar tristezas. Falta de reflexão, falta de atenção pelos sentimentos dos outros e falta de decisão são com frequência os responsáveis.»

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